terça-feira, 27 de abril de 2010

A quadrilha política e o Bhagavad-Gita

Sei que vocês vão dizer que o título é Irreconciliável. Mas sabe que dá para juntar alhos com bugalhos...

Lembra daquela música de Chico Buarque, ‘A flor da Idade’?

Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo
Que amava Juca que amava Dora que amava Carlos que amava Dora
Que amava Rita que amava Carlos que amava Dora que amava Pedro que amava Carlos que amava toda a quadrilha


Pois é. Não é que ela casa, sobremaneira, na política. Então vejamos:

Lula que amava Dilma que amava Ciro que amava Tasso que amava Serra
Que amava Aécio que amava Guerra que amava Jarbas que amava Quércia
Que amava Temer que amava Collor que amava Lula que amava toda a quadrilha


Acredito que não estou dizendo nenhuma novidade.

Coloquei em termos macros, na política nacional, mas essa música se encaixa perfeitamente nas realidades estaduais. Nós sabemos como na política os conchavos e conveniências ditam a regra das alianças. Por isso, Ciro Gomes é chamado a retirar sua candidatura pelo PSB, evidentemente, porque o partido fez um acordo com o PT – diga-se o presidente Lula.

Já conheci gente fã de Lula, de Ciro, de Heloisa Helena, de Serra. Muitas dessas pessoa ainda se deixam levar emocionalmente pela política. Ora, hoje em dia a única política que existe é a das tripas. É meio aquilo que o falecido deputado Roberto Cardoso Alves exemplificou na frase franciscana 'é dando que se recebe'.

A ídeia tem muito a ver com a política praticada hoje pelo PT quando faz alianças com Collor, Sarney, Renan, Maluf e vários outros. Mas não nos enganemos. O PT pode estar na ponta de lança dessa política hoje, mas FHC já a cometeu nos seus conchavos com ACM e limitada. Apesar disso, volto a dizer: não coloco todo mundo no mesmo saco e entendo que hoje a política não parece ter outra saída a não ser distribuir benesses para avançar. Ainda que dizer isso possa parecer polêmico. O problema é maior: está no sistema, ele sim está completamente podre. A começar pela mistura quase indissociável do sexo (vide escândalo Mônica, Renan e CIA Ltda), da política (vide escândalos diários)e do dinheiro (vide meias, cuecas e calças dos parlamentares).

Todas essas três forças (sexo, dinheiro e política) lidam com a ilusão e o desejo. As três dão prazer e sensação de poder. Mas são ilusão, porque colocam fora do homem a realização que elas propiciam. O poder e o prazer que essas três forças ‘nos dão’ podem ser retiradas de nós. Assim, alguém que se baseia nelas para se sentir realizado e preenchido facilmente estaria sentindo-se derrotado e infeliz, caso alguém lhe tirasse alguma dessas 'posses'.

Não digo que a política, o dinheiro e o sexo não servem para nada. Longe disso. A política ainda é o meio pelo qual conseguimos argumentar e chegar a melhorias na sociedade. Ao contrário do que muitos dizem, não acredito que todos os políticos estão num saco só. Alguns têm boas intenções (sei que o inferno está cheio de boas intenções), apesar de terem que participar do sistema para sobreviver. Mas, pelo menos esses políticos não estão completamente entregues.

O problema de fato é o sistema com sua idéia deificada do capital, essa sim uma distorção absurda. Muitos de nós vivemos escravos do dinheiro, quando deveria ser o contrário. Vivemos para pagar contas, para ter uma vida razoavelmente confortável. Vivemos cobiçando um televisão de plasma, 3D, um carro com GPS, uma plástica de corpo perfeito. Dinheiro pode comprar, mas não preencher.

Mas o dinheiro não deve ser visto como um vilão. Ele é apenas um instrumento e vai ter a cor de quem o manipula. Ele pode ser essencial, ou apenas necessário, uma ajuda, para construir.

Bem, acho que me afastei um pouco do tema inicial e vou me afastar mais um pouco ainda... Mas o que quero dizer é que não precisamos só de uma reforma política, o problema é mais em baixo...

Cumprindo minha promessa acima de me distanciar mais. Abaixo transcrevo um texto retirado do Bhagavad-Gita que toca em alguns aspectos do que estou falando. Espero que não fique muito hermético

Existem três modos (ou amarras) da natureza material que acorrentam a alma individual no corpo: a bondade, a inércia e a atividade.

A ignorância nasce da inércia. A ignorância acorrenta os homens pela desatenção, preguiça, e pelo dormir demasiado. A bondade prende alguém à felicidade do estudo e conhecimento do espírito; A paixão prende à ação; e a ignorância prende por negligência, pelo encobrimento do auto-conhecimento.

A bondade mantém-nos longe de atos pecaminosos e conduz ao auto-conhecimento e felicidade, mas não é a salvação. A paixão cria forte cativeiro Kármico, e conduz o indivíduo mais distante da liberação. Semelhantes pessoas conhecem as ações corretas e erradas, baseadas em princípios religiosos, mas são inaptas para seguirem-nos, por causa dos seus fortes impulsos de luxúria. A paixão obscurece o real conhecimento do Ser e causa tanto a experiência de prazer como dor. Tais pessoas são muito apegadas a riqueza, poder, prestígio, prazeres sexuais, e são muito egoístas e mesquinhas.

A ignorância, a pessoa não é capaz de reconhecer a real meta da vida, de distinguir entre a ação certa e errada, e permanece apegada em atividades proibidas e pecaminosas. Tal pessoa é preguiçosa, violenta, carece de inteligência, e não tem interesse no conhecimento espiritual.

Parece que o texto faz um salamalê daqueles não!? Parece que Krishna diz a Arjuna (para quem não sabe o Bhagavad-Gita conta um diálogo entre Krishna e Arjuna antes de uma batalha) que auto-conhecimento apenas não serve, que a inércia ou a reação apenas também não serve. E, por fim, a paixão, por si só, não leva a nada. Todos os três acorretam pelos prazeres que podem provocar. Nada disso leva a salvação.

Mas de qual salvação ele fala?

Creio que Krishna fala da libertação de uma vida de ilusão. Só há uma forma de conseguir a salvação: a consciência ativa.

Só para fazer um link com o início do texto. Se formos seguir o que Krishna diz, não há como nos envolver com política, muito menos falar sobre ela. Nada disso é real e cada vez mais fica mais irreal. Contudo, a consciência olha o mundo como algo real, ainda que saíba que não é...

Não teve jeito, ficou hermético. Volto a tocar no assunto noutro momento...

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Os prazeres criminosos ou o fundamentalismo dos não-fumantes


É apenas uma impressão, ou o mundo anda com uma tendência perigosamente fundamentalista. Um fundamentalismo com a desculpa de ordem, de colocar as coisas nos eixos, sob alguma lei, moral, dever. Uma espécie de perseguição que atinge várias áreas da vida. São aqueles que buscam e acreditam na verdade absoluta. O absoluto existe, mas não a verdade absoluta. A verdade se move, cresce, se expande. Nós crescemos para ela.

Minha mestra de Kabalah, Tânia Carvalho, uma vez disse: imagine você aos 10, aos 20 e aos 40 anos. Em cada idade você sabia e acreditava em determinadas coisas sobre você e a vida de forma diferente. Sua percepção a cerca do mundo e de si mesmo foi mudando com o tempo. Hoje você pode olhar para trás e achar que o que você acreditava aos dez anos era mentira. Mas se você descartar quem você era aos dez aos, aos vinte, você estará matando uma parte da experiência que te fez chegar até aqui, com a compreensão que você tem hoje. Não era mentira o que você acreditava e percebia. A verdade cresceu.

Em parte é por isso que é preciso questionar e procurar a verdade. Suspeite dos jornais, das revistas, da televisão, dos cientistas, dos padres, do papa, dos pastores, dos médicos. Não acredite que eles têm a verdade absoluta. Eu vivo dentro do meio jornalístico e sei: a verdade não está escrita nos jornais. Ela não passa nem longe, quanto mais perto.

Temos a tendência a julgar personagens pelo que a mídia nos apresenta. Mas lhes digo, acreditar piamente na mídia é um erro e um perigo. Podemos estar sendo facilmente manipulados. O melhor é prestar atenção e se municiar de informações variadas, de informações de pessoas confiáveis, ou dos vários lados que conhecem ou presenciaram a notícia...

Mudando de assunto, mas ainda falando de fundamentalismo. Fiquei pensando outro dia numa realidade bem próxima, sobre como nós podemos acreditar que estamos fazendo o bem comum e ainda assim cedemos a tirania. Para mim, quando o Estado Municipal, Estadual, Federal e Internacional resolveu fazer a negação da existência do fumante, passamos a viver uma tirania social.


Vamos lembrar como começou essa luta contra a fumaça... Começaram fazendo uma campanha de conscientização contra o cigarro, as indústrias do fumígeno. Os fumantes foram chamados a repensar seu vício. Confesso que gostei, num primeiro momento, que o cigarro tivesse sido banido de alguns ambientes comuns. Não ter ninguém fumado dentro de um ônibus lotado e ver áreas reservadas para fumantes em aviões, restaurantes, repartições...foi, a princípio, gratificante.

Mas agora o policiamento começa a entrar no âmbito do absurdo. Os fumantes começam a ser perseguidos, acusados e vistos como pessoas que cometeram algum delito grave. Os locais para exercerem seu prazer (ou vício) em público sumiram e eles estão sendo encurralados. Criaram até uma máquina para medir o nível de fumaça no ambiente, isto quer dizer, se alguém fumou, mesmo que já tenha apagado o cigarro, a máquina registrará.

Algumas pessoas ainda chegam ao cume de perseguir os fumantes em sua própria residência. Outro dia uma amiga minha foi abordada pelo síndico do seu prédio. Ele havia recebido uma reclamação da vizinha sobre a fumaça que saia do apartamento dela (da minha amiga, vamos dizer que o nome dela é Joana). Joana tomou algumas providências, fechou a circulação de ar, acima da porta, e passou a fumar na área da varanda. A mulher continuou reclamando. Não suportava o cigarro. Foi preciso que o dono do imóvel conversasse com o síndico e a mulher para chamar atenção do absurdo da situação. “Agora tenho que avisar no jornal que só será alugado para não fumantes?”, questionou o dono.

O fundamentalismo está na religião há muito tempo, quando os religiosos evangélicos, católicos, judeus, mulçumanos atestam que a sua verdade é mais verdadeira do que a dos outros. É como dizer: O MEU DEUS LIMPA MAIS BRANCO...

Na política existem aqueles que perseguem quem muda de opinião. Sei que há muitos oportunistas nessa seara, mas mudar de opinião, de partido, de companheiros... a liberdade deveria ser algo salutar e renovador. Claro que os políticos acabam usando a liberdade para pular de partido segundo suas conveniências e muito pouco tem a ver com qualquer ideal o ideologia. Mas as pessoas não deviam ser obrigadas a permanecer onde não querem mais ficar, nem muito menos serem reféns de algo ou de alguém.

No meio jornalístico há o patrulhamento intelectual. É pecado revelar aspectos de uma alma que tenha algum laivo brega ou que não esteja antenada com as notícias do dia. As pessoas que estão fora desse parâmetro são alienadas. Também é errado ser de direita, gostar de Roberto Carlos, Steven Spilberg ou ler livros de auto-ajuda...


O fundamentalismo (ambientalista, materialista, espiritualista, e quantos mais ista tiver) parece que vai entrando pelos poros, olhos, pele, cabelo, toma o corpo e quando vemos já estamos engalfinhados num calhamaço de regras tortas que devem nos proteger do outro. Vamos entregando nossa liberdade de escolha e movimento em troca da segurança. Uma segurança totalitária de que seremos ouvidos, entendidos, protegidos. Uma segurança que para funcionar é preciso que todos se comportam e pensem igual.

Para mim a unanimidade não é burra, antes é um estado de espírito, onde há uma compreensão real e em uníssono de qual o caminho, a decisão, a ação a tomar... mas isso não pode ser impingido goela abaixo.

Não podemos nos deixar enganar pela falsa ordem. Porque, então, estaremos sentando no colo do Grande Irmão, o verdadeiro Big Brother, aquele que George Orwell apenas vislumbrou, mas que nós estamos cada vez mais conhecendo. Desculpem-me se estou parecendo demasiado alarmista, mas os tempos estão muito estranhos ultimamente.

O vídeo abaixo é o discurso de Charles Chaplin no filme 'O Grande Ditador',
vale a pena dar uma olhada e entender um pouco mais sobre os perigos da intolerância.
video

José Serra: o estilo é o homem

Como prometi, aí vai mais um perfil


José Serra Chirico completou 68 anos no dia 19 de março de 2010. No sábado, 10 de abril, lançou oficialmente a sua candidatura a Presidência do Brasil. O economista ocupou o cargo de governador de São Paulo no período de 1 de janeiro de 2007 até 2 de abril de 2010, quando renunciou ao cargo para se candidatar. José Serra foi candidato à Presidência da República pela coligação PSDB-PMDB em 2002, quando foi derrotado no 2º turno por Luís Inácio Lula da Silva.

Serra tem uma trajetória curiosa. Nasceu em um bairro operário paulista, a Mooca, filho único de pais com sangue italiano, ambos já falecidos. No livro ‘O Sonhador Que Faz’, do jornalista Teodomiro Braga, ele conta:

“Nasci pobre e vivi com pouquíssimo dinheiro até a idade adulta. Meu pai, Francesco, veio para o Brasil com trinta anos de idade. Fugiu da pobreza na Itália para tentar a sorte aqui. Não conheci meus avós paternos, que nunca saíram de lá. Meu avô materno, Steffano, veio da Itália para Buenos Aires, antes da Primeira Guerra Mundial. Minha avó Carmela era argentina, filha de italianos. Os dois se conheceram em Buenos Aires e vieram juntos para o Brasil. A Mooca foi o destino de todos eles. Meu avô Steffano era analfabeto. Sustentou a família com uma banca de frutas no mercado municipal da Cantareira e com uma carroça puxada por um burrinho. Meu pai só aprendeu a ler quando fez o serviço militar. Também ganhou a vida vendendo frutas no mercado público. Sou, portanto, filho e neto de feirantes. Filho único, fui o primeiro da família a chegar à universidade”. Serra dormiu no quarto dos pais até 4 anos; depois, na sala da casinha simples, sem geladeira, nem fogão a gás.


Tímido, José Serra fez o papel principal quando ainda estava na faculdade em uma das peças do diretor José Celso Martinez Correia, uma experiência que, segundo ele, lhe ajuda até hoje. De olhos verdes, considerado na juventude como sedutor, era bom dançarino, daqueles que sussurra no pé do ouvido durante as músicas românticas.

Entre as características, marcantes está a implicância. “Às vezes, tendo a racionalizar demais, de fato, tenho muita dificuldade de entender como uma pessoa não compreende uma coisa que é lógica.", justifica. Já o viram implicar com comida, com a maneira de os outros se vestirem, com o vinho servido num jantar, com a redação de um cardápio, com o que colunistas escrevem a seu respeito, com as ações de aliados e adversários. Extremamente competitivo – se estimula com uma disputa intelectual. Tem uma insônia persistente – o que acaba utilizando para se antenar.

É um utilizador contumaz do Twitter e recebe cerca de 500 mensagens pessoais por dia. Inteligentíssimo, vaidoso, meio psicótico - há anos ele tem o hábito de lavar as mãos várias vezes ao dia, sobretudo depois de cumprimentar estranhos. Não é muito religioso, apesar de ter sido criado em uma família católica. Detesta comida com alho e cebola, não come frituras, não toma café e não digere sementes. Alguns o consideram hipocondríaco. Apesar dessas características fortes, Serra mostra mais seu lado pisciano de homem calmo e pacífico. Mas é evidente que guarda uma força insuspeita dentro de si. Os amigos dizem que Serra é engraçado, espirituoso e até fofoqueiro.


O paulista começou na vida pública em 1962, quando integrou a Ação Popular (AP). Um braço da Igreja católica que surgiu a partir dos movimentos sociais fundados nos anos 1950. O movimento político era resultado da atuação dos militantes estudantis da Juventude Universitária Católica (JUC) e de outras agremiações. No ano seguinte, em 1963, um ano antes do golpe militar, Serra foi eleito para União Nacional dos Estudantes (UNE). Na época, cursava engenharia na Universidade de São Paulo. Naqueles idos, a UNE tinha status de partido político, dando a Serra condição de participar da política nacional e a oportunidade de contato com autoridades, governadores, e com o então presidente João Goulart, o Jango.

Com o golpe e o exílio, ele tinha apenas 22 anos, Serra abandonou a Ação Popular e a política, dedicando-se a estudar Economia, primeiro no Chile e - com a derrubada de Salvador Allende - nos Estados Unidos. Serra voltou ao Brasil antes da anistia, após 13 anos exílio, em 1978, e retomou a vida acadêmica dando aula na Universidade de Campinas. Serra não terminou a graduação, apesar do título constar no currículo. Na verdade, o paulista concluiu a graduação no Chile, mas o diploma não é considerado no Brasil.

Ao voltar do exílio, tornou-se editorialista da Folha de São Paulo e ficou amigo do dono do jornal, Octavio Frias de Oliveira. Contudo, o ex-governador geralmente reclama da relação com a imprensa, ainda que os grandes veículos de comunicação tenham uma identidade política mais próxima a dele do que ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva ou Dilma Rousseff. Serra tem boas relações com colunistas, apresentadores de rádio e televisão e diretores de redação.


Na sua trajetória política, após o exílio, o tucano já foi secretário do Planejamento do governo Franco Montoro, em São Paulo, deputado federal constituinte, ministro do Planejamento, ministro da Saúde do governo de Fernando Henrique Cardoso (FHC), senador, prefeito e governador de São Paulo. A passagem pelo ministério da Saúde rende dividendos eleitorais até hoje para o governador. O programa de combate à AIDS implantado na sua gestão foi copiado por outros países e apontado como exemplar pela ONU. Serra implantou a lei de incentivo aos medicamentos genéricos, o que possibilitou a queda preço dos medicamentos. Eliminou os impostos federais dos medicamentos de uso continuado. Regulamentou a lei de patentes e encaminhou resolução junto à Organização Mundial do Comércio para licenciamento compulsório de fármacos em caso de interesse da saúde pública. Também conseguiu a proibição de propagandas de cigarro na TV.

Serra foi o único governador eleito em primeiro turno em São Paulo – teve 12 milhões de votos. Na sua gestão investiu R$ 64 bilhões, especialmente em obras, transporte e saneamento. Na Saúde, entregou à população 10 novos hospitais e criou 22 AMEs, unidades com médicos e laboratórios. Expandiu a rede de ensino técnico, criando quase 200 mil vagas para jovens. Foi pioneiro ao estabelecer em lei redução de gases do efeito estufa. O tucano acredita que o mundo está começando um novo padrão de produção e de consumo. Distinto daquele erigido desde a Revolução Industrial no século XVIII, em que a economia verde irá gerar novos empregos e renda para combater a desigualdade social. Quando prefeito de São Paulo ele ampliou o bilhete único, integrando o ônibus ao metrô, diminuiu impostos, acabou com a taxa do lixo e recapeou as ruas. Investiu na alfabetização, com uma segunda professora em sala de aula.


Serra prega o que chama de ativismo estatal, em contraposição ao estado excessivo na economia. “De 1930 a 80, nós fomos uma das economias que mais cresceram no mundo. Agora, este é um modelo (o estatizante) que se esgotou, e, em contraposição a ele, não se deve pensar no estado da inércia, da improdutividade. O estado deve ser forte, não obeso. Forte em seu papel de cumprir as funções básicas e ativar o desenvolvimento, a justiça social e o bem-estar da população. E eu defendo um estado ativo”, diz o homem que no dia 3 de outubro poderá ver um sonho de infância concretizado e se tornar o primeiro presidente do Brasil filho de imigrantes.

Assim, Serra representa o sonho do eldorado dos imigrantes que chegaram ao Brasil, sendo concretizado. Mas é inegável, com uma nova imagem, mais associada a sua origem humilde, ele busca se afastar da imagem de um intelectual frio e inacessível e se aproximar do homem comum que conseguiu superar as adversidades da vida.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Dilma: a dama de ferro brasileira

Vou postar perfis dos candidatos à presidência. Primeiro o de Dilma


Dilma Vana Rousseff Linhares tem 62 anos e é a primeira mulher com chances reais de chegar à presidência do Brasil. Considerada de temperamento difícil, uma verdadeira ‘Dama de Ferro’, desde a sua militância partidária. Dilma já foi acusada de destratar colegas como o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo e o presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli.

Mauricio Tolmasquim, secretário-executivo do ministério, declarou que à medida em que foram se conhecendo melhor, Dilma passou a gritar de vez em quando com ele: "É o jeito dela. Não é pessoal. E em cinco minutos fica tudo bem”. O ex-deputado federal Luciano Zica (ex-PT, hoje PV) ironiza o jeitão de trator da ex-ministra: "a Dilma é a pessoa mais democrática do mundo, desde que se concorde 100% com ela." Contudo, as supostas atitudes agressivas de Dilma, garantiriam seu prestígio diante do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que pondera que seu comportamento mais ajuda do que atrapalha.

Questionada sobre seu temperamento, Dilma defende-se: "O difícil não é meu temperamento, mas minha função. Eu tenho de resolver problemas e conflitos. Não tenho descanso. Não sou criticada porque sou dura, mas porque sou mulher. Sou uma mulher dura cercada por ministros meigos", brinca. “Eu fico sempre intrigada por que os homens são sempre meigos, bonzinhos, delicados. Outro dia, o Paulo Bernardo ria muito porque ele falou que é o meigo-mor”, questiona.


O seu temperamento teve uma alteração sensível quando Dilma descobriu um câncer no sistema linfático. A petista chegou a raspar o cabelo antes que ele começasse a cair, devido às sessões de quimioterapia, o que a fez usar peruca durante sete meses, até dezembro de 2009. A doença foi vencida, mas a experiência trouxe um ar renovado à ex-ministra, que mudou o visual, adotando uma postura mais conciliadora.

A ex-ministra é filha de um búlgaro, filiado ao Partido Comunista da Bulgária, que chegou ao Brasil no final dos anos 30. Pedro Rousseff (em búlgaro Pétar Russév) era um advogado, empreendedor e intelectual que em uma viagem a Uberaba conheceu Dilma Jane Silva, professora de vinte anos, casou-se e fixou residência em Belo Horizonte, onde teve três filhos: Igor, Dilma Vana e Zana Lúcia (morta em 1977). A família vivia em uma casa espaçosa, servida por três empregadas.

Talvez o espírito forte do pai tenha influenciado, e a época era propícia, pós Golpe Militar, o fato é que Dilma ingressou na luta armada em 1967, no Comando de Libertação Nacional (COLINA). Após a prisão de alguns militantes pela polícia, Dilma e Cláudio Galeno Linhares, seu primeiro marido, cinco anos mais velho, fugiram para o Rio de Janeiro. Na época, Dilma tinha 21 anos. Ao chegar no Rio, os dois são separados.

Galeno é enviado pela organização a Porto Alegre, enquanto Dilma passa a ajudar participando de reuniões e transportando armas e dinheiro. Foram nessas reuniões que veio a conhecer o advogado gaúcho Carlos Franklin Paixão de Araújo, então com 31 anos, por quem se apaixonou e com quem viria a viver por cerca de 30 anos. Os dois têm uma filha, Paula Rousseff Araújo. Dilma e Carlos Araújo se divorciariam em 2000. Naquela época, Araújo era chefe da dissidência do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e no início de 1969, passou a tratar da fusão do COLINA e a Vanguarda Popular Revolucionária - VPR, liderada por Carlos Lamarca. A fusão deu origem a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR- Palmares).

Ficha falsa que circulou na web e foi publicada pela Folha como sendo verídica


Alguns militares acreditavam (alguns acreditam ainda hoje) que Dilma era a grande líder da organização clandestina. Usando vários codinomes, como Estela, Luísa, Maria Lúcia, Marina, Patrícia e Wanda. Dilma teria sido a organizadora do roubo de um cofre pertencente ao ex-governador de São Paulo, Ademar de Barros, em junho de 1969. Na operação foram pegos 2,5 milhões de dólares. O ex-ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, que estava entre os militantes que invadiram a casa da suposta amante do ex-governador, nega a participação de Dilma, afirmando ainda que é exagerada a versão de ela era a líder da organização.

A VAR-Palmares teria também planejado em 1969 o sequestro do ex-ministro da Fazenda Delfim Neto. Antônio Roberto Espinosa, coordenador da VAR-Palmares, esclarece a participação de Dilma na organização: “Dilma teve uma militância somente política, ou seja, jamais participou de ações ou do planejamento de ações militares”. A ex-ministra acabou sendo presa em 1970. Foi levada para a Operação Bandeirante (Oban), onde foi torturada com palmatória, socos, pau-de-arara e choques elétricos. Dilma foi condenada em primeira instância a seis anos de prisão. Já havia cumprido três quando o Superior Tribunal Militar reduziu sua condenação. Teve também seus direitos políticos cassados por dezoito anos.

Dilma saiu do Presídio Tiradentes no fim de 1972, com 57kg, dez mais magra e com uma disfunção na tireoide. Depois mudou-se para Porto Alegre, seguindo o marido que havia sido preso em 1970, quando este foi transferido para o Rio Grande do Sul.

Em Porto Alegre Dilma começou uma nova fase da vida. Ajudou a fundar o Partido Democrático Trabalhista (PDT) e participou ativamente de diversas campanhas eleitorais. Exerceu o cargo de secretária municipal da Fazenda de Porto Alegre no governo Alceu Collares e mais tarde foi secretária estadual de Minas e Energia, tanto no governo de Collares como no de Olívio Dutra, no meio do qual se filiou ao Partido dos Trabalhadores (PT).

Depois como ministra das Minas e Energia, já no governo Lula, teve a gestão marcada pelos esforços em evitar um novo apagão e pela implantação de um modelo elétrico menos concentrado nas mãos do Estado. Além disso, ao assumir o ministério, Dilma defendeu uma nova política industrial para o governo, fazendo com que as compras de plataformas pela Petrobrás tivessem um conteúdo nacional mínimo, que poderiam gerar 30 mil novos empregos no país.


Em 2008, a indústria naval passou a empregar 40 mil pessoas, em comparação às 500 pessoas empregadas em meados da década de 90, levando a indústria naval à condição de sexta maior do mundo em 2009. Dilma também propôs acelerar as metas de universalização do acesso à energia elétrica, que tinha como prazo final 2015, propondo que 1,4 milhões de domicílios rurais fossem iluminados até 2006. Com as medidas, a região Nordeste pela primeira vez ultrapassou a Região Sul no consumo de energia elétrica.

Assim como José Serra (PSDB), a ex-ministra também teve alterado seu currículo. O site oficial da Casa Civil informava até bem pouco tempo que ela era mestre em teoria econômica pela Unicamp e doutoranda em economia monetária e financeira pela mesma universidade. Na verdade, Dilma cumpriu os créditos referentes aos cursos, mas não defendeu as teses, não obtendo assim os títulos.

Vale ressaltar:
Folha de São Paulo, O Globo, a Época e a Veja têm feito matérias com um viés mais simpático ao candidato tucano. Dilma tem reclamado desses veículos (principalmente com a Folha) que suas declarações têm sido tirada do contexto. Que a ficha (também postada neste Blog) que foi divulgada pela Folha é falsa e que, ao contrário, do que divulgou o Jornal, ela não sabia de arranjos para sequestrar os ex-ministro Delfim Neto. Mas não conseguiu retratação do Jornal, nem o mesmo espaço para a defesa que receberam as acusações.

Recentemente (em abril), o DataFolha (instituto de pesquisa ligado a Folha) entrou numa briga de acusações com outros sistemas de pesquisa sobre os números apresentados da disputa. O Datafolha é o único instituto que põe o candidato tucano a frente (na última pesquisa 10 pontos percentuais) da candidata petista. O Datafolha diz que os números estão sendo manipulados. A acusação é refutada pelo Vox Populi, Sensus e Ibope, que acusam, veladamente, o Datafolha de estar fazendo campanha para Serra.

Para mim, até provem o contrário, todos têm interesses e bem provavelmente estão agindo segundo esses interesses...Melhor desconfiar acreditando.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

2012: mudança de realidade ou o fim do mundo?

A matéria abaixo foi publicada (em parte) na Revista Nordeste de 2009

A partir de 21 de dezembro de 2012 espera-se a destruição quase total da vida humana na Terra, com modificações planetárias que tornariam praticamente impossível a manutenção da existência da raça humana. Entre os cataclismas, que já teriam começado, listam-se: a mudança do eixo da terra, alterando o clima no globo terrestre, tsunamis, terremotos de mais de 10º na escala Richter, eclosões de vulcões, contaminação da água potável, pane na rede elétrica e de comunicação, pandemia de gripe aviária em seres humanos, elevação da temperatura e degelo das calotas polares. Tudo culminaria num estrondoso choque com um asteroide, fazendo pairar sobre a atmosfera um inverno nuclear e uma nova era glacial.

Os cientistas negam qualquer possibilidade de eventos catastróficos nos próximos anos, mas admitem que há mudanças no planeta que devem provocar alterações climáticas significativas para a raça humana. Contudo, eles entendem que essas mudanças, por enquanto, são quase imperceptíveis.

Uma das primeiras referências em relação a data, parte da antiguidade. Explica-se. Nas pirâmides Maias e Egípcias conta-se que existiria uma datação que acompanha os principais eventos celestes, ao que tudo indica uma espécie de efeméride – até hoje os astrônomos costumam apontar quando ocorrerão eclipses e alinhamentos, com projeção para 50, 100 anos. O curioso é que as duas civilizações enumeram os eventos astrológicos somente até 2012.

“A data de 21 de dezembro de 2012, no calendário Maia, conclui um ciclo de 5.125 anos, o que, para os Maias, é um movimento completo na história humana - englobando desde as origens da civilização até o período diante de nós, que eles pareciam considerar como um ponto de transformação inevitável para a evolução humana”, a afirmação é do americano Daniel Pinchbeck, que escreveu 2012: The Return of Quetzalcoatl.

Segundo Pinchbeck, nesta data o sol do solstício de inverno estará alinhado com o centro da Via Láctea e isso possibilitará que o planeta viva uma transição na sua realidade. “Num nível intuitivo, uma coisa que eu enxergo sobre a transição é que a realidade parece estar reagindo sutilmente cada vez mais, ao mesmo tempo em que se torna menos densa em sua forma material.”, conta o estudioso. O alinhamento ao qual ele se refere é um fato raro, e segundo o History Chanel acontece a cada 26 mil anos.

A mestra de Kabalah, Tânia Carvalho, da AD’OR- Centro de Estudo da Kabalah, em João Pessoa, confirma a datação egípcia. “Eu sei que o calendário egípcio termina em 2012. A posição das constelações vão se repetir (Orion e Vênus) coincidindo com a época do fim de Atlântida”, conta.

Essa data marcaria também um movimento drástico do eixo do planeta, que ocorreria devido a distúrbios nos campos magnéticos do Sol que, gerando colossais tormentas solares, afetarão a polaridade de toda a Terra. Há várias teorias sobre o que acontecerá com o eixo, alguns afirmam que a mudança no eixo acarretaria uma inversão dos pólos da Terra.

Outros falam que ao chegar no seu ponto vertical, ele inverteria não os pólos, mas o movimento de rotação da Terra, assim o sol passaria a nascer no ocidente e morrer no oriente. Na verdade não se sabe o que irá acontecer, mas todos concordam que um movimento brusco do eixo geraria violentos terremotos, tsunamis e atividade vulcânica intensa, além de arremessar continentes a milhares de quilômetros de sua localização atual. Entretanto, os cientistas não vêem essa possibilidade.

Segundo a cientista Ana Maria Zodi, da divisão de Astrofísica do INPE, existe sim o movimento do eixo da Terra e ele dura cerca de 26 mil anos. É este movimento que marca o início das eras a cada 2 mil anos aproximadamente. “Atualmente, no dia 1 de março o Sol está na constelação de Aquário, ao passo que na antiguidade estava na constelação de Peixes”, explica. Um outro dado interessante, revelado pela cientista, é que agora, com o atual deslocamento do eixo, a Terra não gira mais sob 12 costelações, surgiu mais uma, a de Ofiúco, a constelação da Serpente, entre Escorpião e Sagitário.

Nostradamus já falava do surgimento de Ofiúco e mencionava o alinhamento com o centro da Galáxia como um dos sinais do fim do mundo. Segundo o profeta, o centro da Galáxia está exatamente na lacuna entre Escorpião e Sagitário, na direção do signo que até então estava oculto. Vale ressaltar que a serpente é um dos animais que aparecem no livro do Apocalipse.

Todavia, a cientista do INPE nega que explosões solares possam ter alguma interferência no movimento do eixo da Terra, mas admite que terremotos e tsunamis podem acelerar esse deslocamento: “é sabido que os terremotos causam variação na distribuição de massa da Terra, ocasionando uma variação na sua rotação. No entanto, essas variações são praticamente imperceptíveis. O terremoto que causou o tremendo tsunami em dezembro de 2004 na Indonésia, por exemplo, produziu um desvio do pólo da Terra de cerca de 2,5 cm e um decréscimo na duração do dia de 2,68 milionésimos de segundo (isto é, a rotação da Terra aumentou), segundo cálculos de pesquisadores da NASA”, pontua. Além de como enxergamos os céu e as constelações, o movimento do eixo também tem relação com as estações do ano, assim, no futuro, lugares que são mais quentes atualmente passarão a ser mais frios.

Sobre as explosões solares, realmente a NASA, a Agência Espacial dos Estados Unidos, afirmou que existem estimativas que apontam para uma intensa atividade solar entre 2010 e 2012. Contudo, a cientista minimiza: “as explosões solares intensas podem causar grandes danos em equipamentos e sistemas de comunicação, inclusive no espaço, e constituem riscos para os astronautas. Mas não causam catástrofes globais na Terra”. O diferencial é que alguns cientistas afirmam que essas atividades poderão ser as maiores dos últimos 50 anos.

O físico Pierre Kaufmann, estudioso das explosões solares, contesta e afirma que não há como prever um período atípico de explosões. “Os períodos nunca se repetem de forma igual. O ciclo é definido pelo número de manchas do sol e não existe modelo que poderíamos usar para prevê-lo. Não se conhece a física do processo”, conta. Mas ele alerta, as consequências, além das interferências elétricas, também são climáticas.

Segundo o professor, quando as explosões solares estão em maior atividade, a freqüência de raios cósmicos que chegam a terra é menor. Isso se inverte nos anos de maior atividade solar. Os raios cósmicos são partículas de altíssima energia que vem do espaço distante e incidem no planeta, produzindo lesões na superfície da terra. Ainda, há uma correlação direta com a cobertura de nuvens em todo o planeta, o que afeta o clima. Quando há maior incidência de explosões são verificadas menos nuvens no céu. “Existem alguns estudos que apontam para grandes secas na região do nordeste na ordem de 10 e 12 anos, exatamente o ciclo de explosões solares”, pontua, explicando que esta pode ser apenas uma tendência, não uma regra fechada.

Existe mais um elemento nas previsões do fim do mundo. Entre o meio esotérico e espírita, e nas previsões de Nostradamus, fala-se também da vinda de um asteroide em rota de colisão com a Terra. O astro teria sido descrito pelo profeta Daniel e seria a “grande estrela ardente com um facho, chamada Absinto” do Apocalipse de João, ou “o novo corpo celeste” de Nostradamus. Ele também foi descrito como o “planeta chupão” por Chico Xavier, ou ainda o “Nibiru/ Marduk” dos Sumérios e o “Hercólubus” da turma da Gnose.

Este planeta asteroide surgiria no céu em 2012. Um profeta moderno, o paulista Jucelino Nóbrega da Luz, que adora fazer previsões e registrar em cartório e já foi chamado por alguns de charlatão, afirma que o asteroide surgirá em 2043 de dizimará 80% da raça humana. Todavia, Da Luz, também prevé para 2012 o início do fim com pandemia de gripe aviária. Ele ainda prevê um tsunami chegando a costa do Brasil – Nordeste e Sudeste – depois de um grande terremoto nos EUA.

O que se sabe de fato é que há cerca de alguns anos a própria NASA chegou a anunciar que um asteroide se aproximaria do planeta por volta de 2012, mas negou logo em seguida. É verdade que a NASA tem um programa que monitora asteróides próximos da Terra, o “Near-Earth Object Program (NEO)”. Também é calculado o risco de impacto. Segundo o site do programa http://neo.jpl.nasa.gov/risk/, as probabilidades de impacto dos asteróides monitorados até agora são muito baixas.

A mestra em Kabalah, Tânia Carvalho, que já conhece os prognósticos sobre 2012 considera que não é bom viver em função de uma profecia, mas ela lembra um papiro egípcio que fala que antes o sol nascia no oriente. “Se apresenta para isso uma estela onde dois leões estão de costas um para o outro com o símbolo do sol poente no centro”. Segundo ela pode haver um Apocalipse, mas quem decide mesmo é uma consciência superior.

“A gente faz o mundo como a gente acredita. Da mesma forma que a gente cria um mundo de cataclismos, maldades, a gente também poder recriar o mundo. Finais sempre existirão, nada é para sempre. Como tudo tem um início, tudo tem um fim. O eterno é a nossa voz interior que nos conecta com o universo e essa força superior que comumente chamamos de Deus”, ensina.

O novo movimento psicodélico norte-americano e 2012

Sei que alguns de vocês vão achar esse assunto esquisito, mas é interessante...

Deem uma chance ao Pinchbeck, apesar de suas excentricidades... Conversei com o escritor quando fui fazer a matéria que está no post acima.

A edição nº 1 da versão brasileira da revista Rolling Stone já havai trazido uma matéria sobre Daniel Pinchbeck, um escritor que está liderando todo um movimento psicodélico nos EUA.

Daniel Pinchbeck é autor do livro “2012: The Return of Quetzalcoatl” (o livro é de 2006. Quetzalcoatl é um Deus Maia que, segundo Pinchbeck, tem muitas semelhanças com Cristo) e colaborador de revistas como Wired e Harper’s Bazaar.

Nascido em 15 de Junho de 1966 o escritor é defensor do uso de substâncias psicodélicas como o LSD, Psilocibina e Peiote (a mescalina, muito famosa na década de 70 depois que Carlos Castaneda publicou sua dissertação de mestrado intitulada no Brasil 'A Erva Do Diabo').

Para Pinchbeck as drogas são capazes de aumentar o intelecto e a percepção das verdades espirituais. Ele é o filho do pintor Peter Pinchbeck e da escritora Joyce Johnson. O cara escreve e é moderador no site www.realitysandwich.com

Devo explicar que não concordo com a utilização de qualquer droga para o acesso aos planos espirituais, a expansão do intelecto ou a alteração da consciência. Acredito que qualquer meio químico utilizado para abrir nossa mente, que não seja o próprio esforço, meditações e reflexões a cerca do nosso comportamento, podem levar ao auto-engano. Contudo, Pinchbeck tem umas percepções que me parecem bastante pertinentes.

Além disso, ele vem liderando um movimento de tomada de consciência da relação do homem com o planeta nos EUA que é uma novidade positiva num país normalmente fechado a essa visão mais 'abstrata' da vida...

Pinchbeck experimentou pela primeira vez a mescalina há cerca de 10 anos nos subúrbios de Manhattan com um shaman da California apresentado a ele pelo poeta Michael Brownstein. Um ano depois, após encomendar ingredientes em um site de artigos botânicos, ele cozinhou o chá para dois amigos em seu apartamento.

O movimento norte-americano e a turma de toronto
Com a droga ele teve a seguinte percepção: “me veio um pensamento de que a consciência humana é como uma flor que desabrocha da terra”, escreve Pinchbeck. “O caule e as raízes são cordões invisíveis, filamentos etéreos que apontam de volta para um ser extradimensional maior. Nossa separação em relação a esse ser maior era apenas uma ilusão temporária. O universo era, nós saberíamos se pudéssemos perceber seus trabalhos, cheio de propósito e bom. Então estava olhando para cima a partir de meu túmulo enquanto terra era atirada em meu caixão. Ainda assim, esse ponto de vista estratégico de filme de terror não me incomodou. Me fez sentir calmo”…

O vídeo abaixo fala sobre 2012. Tem uma narração horrível, mas dá para abstrair. Daniel Pinchbeck escreveu um livro que fala muito sobre o Calendário Maia, aquele que prevê uma mudança planetária a partir do alinhamento do sol e dos planetas do Sistema Solar com o centro da Galáxia, passando pela constelação de Ofiúco (a constelação da Serpente), que, segundo o calendário, deve acontecer em 21 de dezembro de 2012.

Tempos Pós-Modernos - Rumo a 2012
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Mudando um pouquinho de assunto, saindo de 2012 e me concentrando em Pinchbeck, o pensador e escritor também esteve no Brasil, mas precisamente em Brasília e na Amazônia, onde experimentou o Santo Daime. Abaixo uma parte do seu relato postado no site http://santodaime.org/comunidade/Jurua/daniel_report.htm Atenção: Quando Pinchbeck fala que tomou 'medicina', está se referindo a mescalina...

"Recentemente, visitei alguns centros do Santo Daime com Jyoti, nossa guia da rede Kayumari, e outros dez ocidentais da Europa e dos Estados Unidos, em uma viagem que durou três semanas. Nossa primeira parada foi Brasília, a capital do Brasil, uma cidade modernista construída a partir do nada em 1960. Ficamos na comunidade do Santo Daime nos arredores da cidade, e participamos de duas cerimônias enquanto estávamos lá.

Inicialmente, senti uma resistência profunda ao trabalho com Santo Daime. Nas cerimônias shamânicas que participei anteriormente, nós tomamos ‘medicina’ no escuro, e o foco era na experiência de visões individuais. Nas cerimônias do Santo Daime, as luzes ficaram acesas, e a energia focalizada em criar um tipo de mente grupal. Mais tarde, José Murilo e Fernando La Rocque, nossos anfitriões, explicaram que chamam isto de “shamanismo coletivo”. Também levei algum tempo para me acostumar com os hinos, que pareceram muito estranhos a princípio. Além disso, senti uma poderosa reação negativa à idéia de uma estrutura religiosa formal onde as pessoas usam uniformes, sentam em filas, e os homens são separados das mulheres.

Eu tive que sair constantemente da igreja. Saía para me sentar perto do fogo aceso do lado de fora ou andar a esmo olhando as estrelas. Há guardiões designados a tomar conta da cerimônia e eles sempre vinham até mim para me convencer a voltar para dentro. Para mim, naquele momento, me pareceu uma violação da minha liberdade pessoal ter de participar do trabalho. Voltei mas com grande relutância. Eu senti raiva de suas tentativas de restringir minha independência.

De Brasília, nosso grupo voou seis horas até a Floresta Amazônica no Oeste do Brasil. Ficamos em uma comunidade Daimista chamada Céu do Cruzeiro do Sul. Eles têm um lindo centro de cerimônias, pintado em branco e azul, com faixas coloridas. Para nossa única noite, organizaram um trabalho que implicava em dançar a noite toda. A dança era simples, de apenas dois passos, todos indo de cá para lá dentro de um espaço mínimo de um metro. Dancei um pouco, então minha resistência cresceu de novo. Saí e me sentei perto do fogo, depois voltei à minha rede. Nesta comunidade, ninguém parecia se preocupar se eu estava ou não em meu lugar.


Voltei sozinho para meu quarto de hóspede e percebi que não queria mesmo participar da cerimônia. Minha resistência desapareceu instantaneamente. Voltei e dancei o resto da noite, e comecei a entender porque o Santo Daime têm trabalhos de uma forma tão rigorosa. Quando eu me permiti entrar “na corrente”, como eles dizem, senti que a ‘medicina’ não estava apenas me apresentando a uma força ou presença divina, mas também limpando minha psique. Era parecido com a meditação Budista da não/mente onde pensamentos aparecem e desaparecem sem nossa interferência.

(...) Na manhã seguinte, voltei e sentei por um instante na igreja vazia. Pela primeira vez em minha vida, senti que entendia a natureza da devoção como prática espiritual. Me pareceu que a devoção era uma vibração ou um tipo de freqüência que ajudava a segurar a estrutura da realidade. Me emocionei e senti muita gratidão por ter sido apresentado a esta prática cerimonial.(...)


Ufa! Bem, como disse no início do texto não concordo com tudo - especialmente as experiências com as drogas - mas as idéias que ele tem defendido, são interessantes. Contudo, não aconselho, de forma alguma, que alguém embarque numa aventura semelhante com a mescalina brasileira ou norte-americana.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

CQC: esquerda, direita, Efraim e os hilários Gentili e Cortez


O CQC faz aquele tipo de humor destruidor. Nada fica pela frente, tem algo de irresponsável, de bagunceiro, malandro, ri de tudo e de todos. Bem ao estilo: perco o amigo, mas não perco a piada. Confesso que não sou um telespectador assíduo. Vi uma coisa ou outra, mas do que vi, deu para perceber que com programas tipo A Praça é Nossa, Zorra Total, Programa do Tom, Faustão, Caldeirão do Huck (ops, esses dois não são de comédia...), o CQC (Custe o Que Custar) dá de lavada como melhor humorístico no ar.

Vi um programa, faz algum tempo, onde boa parte da esquerda se juntava para relembrar a reunião da UNE de 68 quando todos os estudantes foram em cana. No dia do programa, no local, também estava havendo uma “das maiores reuniões da esquerda brasileira”, segundo o humorista do CQC.

Lá estava o Danilo Gentili - que de Gentil não tem nada - em algumas entrevistas engraçadíssimas. Muitas monossilábicas e outras grossas mesmo. O cara tira o maior sarro, desmistificando a cara de bicho papão do pessoal da foice e do martelo, os fãs de Fidel, do PT, gente que participou da luta armada durante a ditadura, etc. Gente muito boa, mas que, às vezes, leva as coisas muito a sério...

Apesar de rir, foi triste ver o mal humor do vermelhos. Entendo que ver alguém sacanear com suas crenças não é agradável, mas é preciso ter um pouco mais de jogo de cintura gente. No todo, foi ótimo o jogo de cintura de Zé Dirceu.


Danilo Gentili com a Esquerda

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O pior de tudo foi que momentos antes, no mesmo programa, o próprio Gentili havia sido ‘recebido’ pela direita no lançamento do livro de Reinaldo Azevedo - No País dos Petralhas. O colunista da Revista Veja - não precisava dizer que ele é de direita, escrevendo para Veja - tinha até a presença ilustre de José Serra, no evento. Como sempre, Serra sem nenhuma simpatia para distribuir. Lá também estava o ex-governador Jorge Bornhausen (o político da velha guarda que foi governador biônico. Lembram? Aqueles que eram nomeados pela ditadura).

Contudo, o povo de direita foi mais simpático do que os de esquerda, apesar de Gentili ainda encontrar uns mal humorados.

O comediante, no programa, parecia bolinha de Pinball. Apanhou dos dois lados. Conclusão: a esquerda não sabe rir de si mesma, enquanto a direita consegue levar mais na esportiva. Mas os dois são é mesmo sisudos.

Danilo Gentili com a Direita
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Bem, no último dia 10 de abril, no lançamento da candidatura de Serra à Presidência da República, foi a vez de Rafael Cortez, que convenhamos, de cortes não tem nada, mas também sabe tirar sarro dos políticos.

O evento era prato cheio: Kassab, Eduardo Azeredo (o cara do mensalão tucano), José Agripino (dizendo que em mulher só se bate a pedidos!), Efraim (capítulo a parte), Aécio (o mais soltinho, parecia realmente feliz e a vontade), Serra ('simpático' como sempre) e FHC (esse foi o que melhor se saiu das perguntas capciosas). Mas acho que nessa altura do campeonato (com FHC) o Cortez já estava cansado.

A idéia do CQC é deixar os políticos, a elite, os atores, seguranças e quem mais aparecer, numa sinuca de bico, sem saída. As perguntas colocam as pessoas no rídiculo as confrontando com suas próprias incoerências, outras vezes as perguntas não passam de uma brincadeira boba, mas justamente por isso, questionando pessoas que são 'autoridades' fica engraçado.

Noutros momentos o atores do CQC colocam na mesa as acusações da mídia de uma forma fria e absurdamente direta. A graça vem, na maior parte das vezes, dessa situação vexatória, quando adicionada a uma pitada de humor ácido. E ainda tem as intervenções (sons, e imagens inseridas) que são hilárias.

No lançamento da candidatura de Serra, Rafael Cortez é rápido nas tiradas, nas saídas. Usa bem o ator e o lúdico para resolver os momentos delicados - foi assim com Efraim. Ele (Cortez) ri e brinca, tornado o azedo (das perguntas) até engraçado. Há que se dar a mão a palmatória, o cara é ótimo.

Na outra ponta, Efraim perdeu as estribeiras – ficou puto, fulo, irritado, e foi além ao partir para o pessoal com o ator/jornalista/comediante. Dizer "dormir com sua esposa ou sua mãe”, foi demais. O senador até podia ter alguma razão, mas a perdeu quando se alterou.

Não justifica, apenas ameniza, que o programa tem marcado em cima do paraibano e o comediante pôs a família do senador no meio, ainda que estivesse dentro do tema proposto pelo programa (o nepotismo)... Além disso, há uma edição na fala de Efraim e de Rafael Cortez, portanto, não dá para saber exatamente o contexto daquela história... No final das contas...tudo bem senador, às vezes a pessoa não está num bom dia, a hora não é oportuna, ainda tem o cansaço e o saco cheio que podem tirar a gente do trilho. Mas, da próxima vez é melhor silenciar.

Não vou falar muito. Os vídeos falam por si. Assitam e bolem de rir da cara séria da esquerda e de como a direita pode ser, por si só, uma zona - o que parece meio incoerente (rs), já que eles são normalmente arrumadinhos enquanto a esquerda é mais largada, gosta de um chinelão e de uma bolsa a tiracolo. Basta ir em qualquer evento de um ou de outro para constatar.

No mais, um conselho (sei que dizem que se conselho fosse bom era vendido, mas não resisto): políticos, cuidado com a somatização, com o coração, menos, menos... Não esqueçam, tudo passa... até o mandato...

Lançamento da Candidatura de Serra - muito engraçada
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terça-feira, 13 de abril de 2010

Cícero e Veneziano tropeçam

Suspeito que tem muita gente como Manolito, o personagem da Mafalda...
É uma semana para Ricardo Coutinho (PSB) e Cássio Cunha Lima (PSDB) comemorarem. Primeiro, porque o senador Cícero Lucena (PSDB) deve mesmo desistir da candidatura para ser coordenador na campanha de José Serra à presidência, contrariando o apelo de seus comandados.

Segundo, porque o prefeito de Campina Grande, Veneziano Vital do Rego (PMDB), coordenador da campanha do governador José Maranhão (PMDB), foi cassado pela 10ª Zona Eleitoral.

Claro que há outros capítulos se desenrolando, mas é evidente que as duas situações contribuem para o desenvolvimento da campanha do ex-prefeito de João Pessoa nas eleições de outubro.

Para quem questiona como ficará Cícero e sua turba do barulho, capitaneada por medalhões como Hervásio Bezerra, Marcus Vinícius, Anibal Marcolino e outros. Óbvio, eles vão se unir a Maranhão, ainda que não seja oficialmente. Já avisaram até que não votam em RC, nem se ele fizer uma plástica e parecer Gisele Bündchen.

E Veneziano? Em curto prazo, a notícia, por si só, ajuda ao Grupo Cunha Lima, e por tabela ao prefeito de JP.

Todavia, creio que, por enquanto, pouco ou nada acontece de fato na administração de Campina que possa influenciar realmente a corrida eleitoral. Talvez mais na cabeça dos eleitores campinenses. Se bem que os paraibanos - e os campinenses em particular - não parecem ligar muito para essa história de cassação. A fidelidade dos eleitores tem sido a toda prova, vide a imensa turma que se mantém leal a Cássio apesar da cassação.

Mas a 'bomba' da justiça deve mudar a estratégia dos irmãos Vital e ensejar mais empenho na eleição do governador Maranhão. Afinal, é melhor não arriscar o futuro completamente.

Contudo, se querem saber se o prefeito de Campina Grande será ou não defenestrado. Não sei, a política e a justiça são searas movediças. Às vezes a gente acredita que o terreno é firme e depois, ao pisar, afunda até a cabeça. Por isso, não dou palpite... pensando bem...acho que ele fica até o final do mandato, ou, na pior das hipóteses, até quase lá.

Existe outra questão: prevalecendo esse cenário – de apenas duas candidaturas fortes – a eleição será definida no primeiro turno? É possível. E nesse caso, se a eleição fosse hoje, a situação ficaria muito perigosa para Coutinho, já que, até prove-se o contrário, ele está em desvantagem.

Afinal, até agora a ‘campanha’ de RC não deslanchou exatamente e as visitas a correligionários do interior estão em banho Maria, ponto morto e na base do cochilo. Enquanto Maranhão é mais feliz em cooptar novos aliados.

Mas vale ressaltar, como disse inicialmente, que RC tem mais motivos para festejar do que reclamar. Com Cássio cimentando o trajeto dentro do PSDB para um apoio amplo ao ‘Mago’ e esse caminho estando quase totalmente concretizado, a tendência é que fique muito claro, e definido para o eleitor, quem é quem entre os candidatos.

Cícero bagunçava um pouco o meio de campo, com sua opção terceira via. Enquanto isso, o grupo cicerista fica um tanto órfão com a decisão do senador. Se é que ela será realmente levada a cabo.

Mas, me digam aí, vocês não acham estranho que Cícero tome a decisão e só queira anunciar depois de um mês – após a viagem ao EUA? - Agora estão dizendo que ele já cancelou a viagem... Vai ver o cara ainda está 'mastigando' e a decisão não está assim totalmente tomada, ou, talvez, seja a tentativa de ganhar tempo. Para quê? Por outra opção?...

Um amigo meu aposta noutra direção, algo mais prosaico: Cícero quer dificultar o máximo a vida de RC.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Os medos, a vaidade e a homossexualidade (?) de Chico Xavier

Toco nesses temas, apesar de não concordar com a forma como eles vêm sendo tratados em relação a Chico, porque sei que muitos (desses temas) ganharam holofote com a publicidade em torno do filme. O longa não fala sobre esses assuntos abertamente, mas toca em pelo menos três passagens. O medo é demonstrado numa cena folclórica quando o médium vive uma turbulência aérea num vôo. Ele grita e pede socorro a Deus. Neste momento Emmanuel (seu guia espiritual) surge lhe cobrando compostura e trava um diálogo áspero, mas extremamente engraçado.

Contudo, a cena enseja um dúvida: essa seria a forma de um líder espiritual, com estreita relação com a morte, agir numa situação de perigo mortal?

A vaidade seria demonstrada quando ele passa a usar uma peruca para cobrir ‘esconder’ a calvície. Chico uma vez falou que preferia não se apresentar de uma forma desagradável aos olhos das outras pessoas. Mas a evolução espiritual não deveria acarretar desapego da aparência física, entre outros desapegos?

No filme de Daniel Filho a questão sexual é tocada em três momentos.

Primeiro quando o pai de Chico resolve levá-lo ao prostíbulo para que ele possa ‘perder’ a virgindade. Ao invés de sexo o rapaz convence a todos a fazer um círculo de oração.

Noutro momento, na ilha de edição da TV onde Chico está sendo sabatinado, um dos funcionários da TV faz alusão a marchinha de carnaval. ‘Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é...’. Por fim, as imagens reais de Chico, à vontade em público, mostram um homem que não temia em expor a delicadeza. E em alguns momentos essa delicadeza beirava o feminino.

O comportamento do médium, enquanto vivo, gerou desconfianças de sua sexualidade.

Sei que algumas pessoas, ainda hoje, também questionam. Como pode um homem que se diz espiritualizado ser homossexual? Segundo um colega meu, todos esses pontos (medo, vaidade e homossexualidade) apontam para uma incompatibilidade com o desenvolvimento espiritual, defendido por Chico. O que demonstraria incoerência.

Não ia tocar nesse assunto, mas talvez seja realmente inevitável...


Tenho simpatia pelo médium e sua história de sofrimento e não concordo com os argumentos acima – alguns deles foram utilizados no passado e ainda hoje, infelizmente.

No filme de Daniel Filho, em trecho da entrevista no Programa Pinga Fogo, Chico fala sobre o sexo. O diretor omitiu um trecho anterior na mesma resposta onde o médium fala sobre homossexualidade e bissexualidade. Para Chico, e o guia Emmanuel, estados inerentes a alma que não devem servir de perseguição ou chacota.


No programa Chico afirma: ‘Vamos dizer: se as potências do homem na visão, na audição, nos recursos imensos do cérebro, nos recursos gustativos, nas mãos, na tactividade com que as mãos executam trabalhos manuais, nos pés, se todas essas potências foram dadas ao homem para a educação, para o rendimento no bem, isto é, potências consagradas ao bem e à luz, em nome de Deus, seria o sexo em suas várias manifestações sentenciado às trevas?

Ouso responder, utilizando a mesma linha de raciocínio: não, o sexo em suas várias manifestações não deve ser sentenciado às trevas. Afinal, se temos tantos meios de crescimento e descoberta interior e de nossas potencialidades dadas por Deus, não devemos considerá-las como maléficas. E o sexo está entre esses meios de descoberta interior.

Mas só pontuando os temas acima. Não afirmo que Chico Xavier se iguala a Cristo, Buda, nem mesmo a Ghandi, apesar de ser perigoso fazer um juízo de valor tal e dizer quem é maior e quem é menor. Não tenho régua para isso.


Os líderes espirituais – e o médium é um deles, certamente – têm suas missões, muitas vezes missões árduas e dolorosas. Há histórias de líderes que não chegaram a atingir um nível supremo de liberação do plano físico, de desejos, prazeres, complexos e medos, e mantiveram na personalidade o que seriam considerados pequenos pecados. Mas afirmo, tais características não necessariamente desvirtuam o caminho espiritual.
Elas só são consideradas graves na medida em que realmente atrapalham o trabalho verdadeiro do homem. Aquele Trabalho com 'T' maiúsculo, que serve a Grande Obra de Deus


Outra coisa, há um estágio da consciência espiritual onde a liberdade da alma é plena e qualquer regra de certo e errado, mal ou bem, pecado ou graça, aprisionam. O mais importante de tudo é a consciência com que se faz algo, não exatamente o algo em si, e em que nível cada ser individualmente se responsabiliza por seus próprios atos e desatinos.


Assim, para mim, se Chico não era (ou não parecia) espiritualizado na medida em que nossa sociedade acredita que seria a ideal, digo: e quem é esse ser perfeito que está apontando o dedo para o imperfeito? Quem é esse que sabe a fórmula que deve ser seguida e ainda não a colocou em prática? Quem é esse sem defeitos e puro que não mostra o caminho? Muitos problemas do plano espiritual em relação a humanidade são a quantidade de moldes que a nossa sociedade resolveu criar para dizer quem está caminhando na senda da luz. O problema é que não raro, ninguém cabe nesses modelos idealizados de perfeição.

Sobre se ele era ou não era homossexual, não sei. Mas sinceramente, não concordo que a orientação sexual de alguém, ou a prática do sexo, signifique alguma diminuição da evolução espiritual. Volto a dizer, tudo depende da consciência de quem faz, das intenções, do responsabilizar pelos próprios atos. Para mim, não há pecado em avançar pelas descobertas espirituais e manter-se ligado a alguns elementos telúricos. Deus não mede o merecimento ou a luz de alguém por esse prisma. Essa mensuração, infelizmente, é feita por nossas mentes atrasadas...

No vídeo abaixo Chico Xavier fala sobre homossexualidade


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Daniel Filho faz um 'Chico Xavier' sem surpresas

Vi neste domingo (04/04) o filme ‘Chico Xavier’. Antes de qualquer coisa: gostei do longametragem. Infelizmente, o maior mérito está no próprio personagem, por si só interessantíssimo e importante na história recente do Brasil. Contudo, ainda não foi dessa vez que o diretor Daniel Filho, sempre monótono nas abordagens que faz, conseguiu dar um salto qualitativo.

Daniel Filho evitou uma abordagem mais arrojada e acabou fazendo um filme chapado, sem grandes surpresas. Além disso, é visível que o ator Ângelo Antônio cresceu substancialmente nas suas interpretações, vide ‘Os Dois Filhos de Francisco’, desde que foi lançado pela Rede Globo, mas foi um erro escolhê-lo para fazer o papel de Chico adulto, principalmente quando temos um Matheus Rocha – Chico criança –, magnífico na tela, e um Nelson Xavier – Chico idoso – mimetizando quase a perfeição o espírita mineiro.


Ângelo Antônio é o elo mais fraco dos três atores, mas é justamente o encarregado de vivenciar o início da trajetória espírita do médium. Uma tarefa delicada. Não digo que ele se sai mal, pelo contrário, acho que ele vai além de suas limitações, mas não impede – ou contribui – os momentos mais arrastados do longa.

Bem, vamos por partes. O cinema estava lotado, coisa ainda incomum para um filme brasileiro. Mas talvez se explique por que a história de Chico Xavier ganhou os holofotes nos últimos dias, graças a uma propaganda maciça da TV. Além disso, o espiritismo é uma religião que, por si só, causa curiosidade. Não dá para esquecer que o povo brasileiro é afeito ao sincretismo e palavras como possessões, trabalho feito, mau olhado, benzedeira, olho gordo, macumba, mesa branca, reencarnação, não são exatamente novidade, ainda que realmente incompreensíveis para muitos.

Assim, o filme começa. Vemos Nelson Xavier na pele de Chico (não há parentesco entre os dois). O ator mostra um trabalho primoroso de interpretação. Chico reza num camarim e a imagem esfumaçada, meio fantasmagórica do ator, adianta qual o tema do filme. O letreiro paira sobre o personagem como se o circundasse um universo invisível. Ele pede a presença da mãe e ouve um homem ao fundo dizendo que estará com ele. É o guia Emmanuel. O diálogo é com o invisível.

Depois Chico entra literalmente em cena, num programa de auditório. Onde várias pessoas lhe farão perguntas e colocarão em xeque a doutrina que professa. Em determinado momento a câmera assume a imagem em preto e branco da televisão e avança sobre o granulado da imagem como se quisesse ir além da imagem e somos transportados para o início do século XX, no interior de Minas, na cidade de Pedro Leopoldo, quando Chico ainda era criança.

A transição do auditório para o passado é suave. A partir do granulado da tela de TV, a câmera avança sobre as nuvens. Sobrevoa como se estivesse buscando alguém até que vemos uma casa e dentro dela um menino (Matheus Rocha) que sob as ordens da madrinha (Giulia Gam) é obrigado a lamber uma ferida de outro garoto. Supostamente para curar o menino.

Após essa cena, Chico criança está deitado ao pé de uma árvore e conversa com uma mulher. É a sua mãe. O menino se queixa da madrinha, enquanto a mãe ameniza, pede paciência e diz para que o filho se contenha e suporte tudo sem reclamar ou responder a madrinha. A relação dos dois é de cumplicidade. Chico é chamado pela madrinha e a mãe se despede. Só aí percebemos: ela é um espírito.

É um início delicado, extremamente bem cuidado, mas as intervenções poéticas vão sendo diluídas no pragmatismo do diretor em se ater aos fatos reais. As belas abordagens serão raras a partir daí, mas surpreendem.

Chico cresce sob os olhares incompreendidos da madrinha, que o maltrata. De um pai que questiona se o menino tem algum problema mental e com anuência do padre local obriga o filho a pagar um promessa com um tijolo na cabeça e rezando 100 Aves Maria. Temendo fervorosamente carregar consigo algo satânico, é comovente vê-lo tentar deixar de lado sua mediunidade, mas nada disso muda a realidade que ele enxerga.

A infância do médium é dolorosa, solitária, envolta nos xingamentos dos colegas, confundido como um louco, estranho e perturbado. Mas Chico jamais deixa de prestar seus respeitos à Igreja Católica.

Só quando estiver adulto o médium começará a entender o que acontece com ele, após conseguir expulsar um obsessor do corpo de sua irmã com a ajuda de um casal espírita. Outra bela cena. Chico é chamado para ajudar a libertar a irmã que se contorce amarrada numa mesa. O médium desamarra a irmã e carinhosamente entabula uma conversa com o espírito, pedindo para que a libere. Também é aí que o médium, finalmente, recebe a visita de seu guia espiritual: Emmanuel.

Emmanuel, no primeiro encontro com Chico avisa que é preciso aprender três regras básicas para o trabalho: disciplina, disciplina e disciplina. O guia é duro na forma como trata Chico e o avisa que o trabalho é árduo, que ele será chamado de louco, charlatão que muitos ficarão contra ele. Neste período começam as sessões intermináveis no Centro Espírita onde o médium atende. É o início de um cem número de livros escritos pelas mãos do mineiro, ditadas por vários espíritos, entre eles Olavo Bilac, Augusto dos Anjos, Humberto de Campos e Castro Alves.

Chico faz desobsessões, receita medicamentos caseiros, recebe a Imprensa. Num passagem curiosa, os repórteres da revista O Cruzeiro, David Nasser e Jean Manzon, se passam por jornalistas do New York Times em busca de uma matéria com o médium brasileiro. Antes da entrevista, Chico entrega dois de seus livros aos jornalistas e depois se submete a uma batelada de perguntas, respondidas pelos espíritos através de psicografia sobre os mais diferentes assuntos. O médium escreve em inglês, português e Francês. Entre as perguntas temas como economia e política social.

Na redação de O Cruzeiro, David está prestes a escrever uma matéria acusando Chico Xavier de fraude – afinal como ele poderia falar com espíritos e estes não lhe orientaram sobre a falsa identidade dos jornalistas. A matéria já está pronta quando Jean mostra ao colega os livros autografados pelo guia Emmanuel. Na dedicatória os nomes verdadeiros do jornalista.

Também é nessa época que a igreja católica começa uma sistemática campanha para dissuadir seguidores que buscam no espiritismo uma saída aos males que lhes afligem.

Desde a infância até a velhice o médium vive uma vida espartana, sem luxos. Uma rotina onde escreve, atende aos necessitados e ainda trabalha como servidor público (não fica claro a partir de quando Chico deixa de trabalhar para se sustentar). A morte se dá em 2002, aos 92, mas o filme não vai até lá.

Chico deixa um legado substancial. 419 livros escritos e traduzidos para 33 países. De menino pobre e filho de pai inculto e mãe lavadeira, Chico Xavier torna-se o maior expoente do espiritismo após a morte do francês Alan Kardec, que psicografou os livros que dão hoje fundamento à religião.


Apesar da 'pegada' dura de Daniel Filho, o filme vale a pena. Pela personalidade e vida do médium, além dos belos momentos do longa – alguns realmente emocionantes – e pela atuação dos atores. A ficção ainda conta com Tony Ramos e Cristiane Torloni em boas perfomances. 'Chico Xavier' bateu recorde na estréia, levando 593 mil pessoas da sexta ao domingo de páscoa. Mais do que 'Se Eu Fosse Você 2' e quase a metade de tudo que conseguiu 'Lula - O Filho do Brasil'.