terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Parque Sólon em Flor, uma experiência solar


Ontem (dia 27/12) desci do ônibus (voltei a andar de ônibus, não só porque gosto, também em vias de algumas necessidades) e dei de cara com um Parque Sólon de Lucena iluminado. Não era noite, passava pouco das 7h. Os Ipês amarelos estavam em flor e despejavam uma chuva de flores sobre a grama.

É engraçado, não dá para descrever a sensação acompanhada à cena. As palavras são curtas para expressar realmente tudo que presenciei.

O sol iluminava o parque de uma forma que fazia parecer que flores, não eram flores, mas raios de sol que atravessavam a atmosfera e vinham se despejar na terra, servindo de tapete aos privilegiados homens e mulheres que passavam. O tapete amarelo no chão do parque criava uma atmosfera que era um misto de diversão e encantamento.

Algo mágico acontecia... Esses eventos naturais tocam uma melodia qualquer que vibra e faz aquecer o coração. Era como se ali, na beleza em movimento da paisagem, eu pudesse ver Deus. Vocês podem dizer que eu estou exagerando, mas não estou. A sensação foi realmente essa.

A mistura de luz e sombra, de cores e temperaturas e a bela demonstração de desapego das árvores que se desfaziam de sua lindas cabeleiras provocava um estado de quase êxtase.

Tive vontade de ficar ali, parado, apreciando o espetáculo.

Em meio a loucura dos dias, do consumismo do Natal, dos números frios da economia, das necessidades umbilicais, os Ipês floresciam e, ano após ano, davam um espetáculo gratuito, sem escolher quem iria presenciar sua bela 'apresentação'.

E, infelizmente, alguns poderão passar e ver apenas a chegada de uma nova estação.

E eu com as palavras curtas, pequenas e insignificantes demais para expressar a magia que foi aquele início de manhã de segunda-feira.

Foto: Demétrius Oliveira

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Um mergulho infantil: As Crônicas de Nárnia – A Viagem do Peregrino da Alvorada

Antes de qualquer coisa, o título do artigo não tem duplo sentido. Para fim o filme é um mergulho no universo de fantasia infantil. A primeira vez que vi As Crônicas de Nárnia era criança. Foi um desenho animado que passava na sessão da tarde. Apaixonei-me pelo filme, que passou a fazer parte dos meus preferidos. Era ‘O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa’. O filme lembrava as brincadeiras de faz de contas. Crianças entrando dentro de um guarda-roupa e descobrindo um outro mundo onde vivem aventuras eletrizantes e descobrem a bravura e criaturas míticas.

Já no primeiro filme, a imagem do Leão era algo que impressionava, indo para o sacrifício voluntário, sendo tosado e ressuscitando. A referência era clara: Cristo. Depois retorno á essa referência. Vamos ao terceiro filme da franquia.

As Crônicas de Nárnia: A Viagem do Peregrino da Alvorada (The Chronicles of Narnia: The Voyage of The Dawn Treader/2010) conta o retorno de Edmundo (Skandar Keynes) e Lúcia Pevensie (Georgie Henley) à Nárnia.

Neste episódio, a família está dividida. Enquanto os irmãos mais velhos, Pedro e Susana, estão morando com os pais nos EUA, Edmundo e Lúcia ficam hospedados na casa de tios, em Londres, a espera do fim da 2ª Grande Guerra.

Edmundo e Lúcia sofrem com o incômodo e emburrado primo Eustáquio Mísero (Will Poulter) até que todos acabam sendo transportados mais uma vez para Nárnia, onde reencontram o rei de Nárnia, Caspian X (deixado no segundo episódio) e o rato Ripchip. Juntos, todos viajarão à bordo do navio Peregrino da Alvorada, a procura dos sete fidalgos e as suas respectivas espadas. Ao reunir as sete espadas sobre a mesa de Aslam os heróis poderão vencer o mal que assombra os mares de Nárnia. Para isso, enfrentarão diversos perigos e aventuras em inúmeras ilhas.

O roteiro é frágil, não vai muito além disso, mas ao contrário do primeiro episódio da série, onde era difícil de acreditar que as crianças conseguiriam vencer as feras comandadas pela Feiticeira do título, neste episódio as idéias são mais plausíveis. Pelo menos.

Os efeitos especiais não deixam nada a desejar às grandes franquias do gênero, mas o contribuição mais deliciosa é mesmo a dobradinha entre o ratinho Ripchip e o primo Eustáquio Mísero. Ainda que Eustáquio no início do longa beire o insuportável e o longa o pinte como um covarde que gosta de dizer que é pacifista (uma tirada no mínimo de mal gosto). O garoto ganha tons mais amenos na segunda metade da ficção.

É interessante como todos os filmes da série colocam as crianças para vencer situações que têm a ambição pelo poder, a vaidade, o ciúme e o medo como molas propulsoras do mal, mas não consegue ir fundo o suficiente quando aponta defeitos de personalidade nas personagens. Assim foi no primeiro episódio da série, quando Edmundo foi seduzido pela Feiticeira Branca (interpretada pela atriz britânica Tilda Swinton). Neste, quando Lúcia vê despertar em si a inveja no desejo de ser como a irmã mais velha, mas, depois de um rápido sonho, muda de idéia, o filme perde a oportunidade de aprofundar um pouco mais a personalidade da personagem.

É uma aposta na unidimensionalidade e num filme sem grandes pretensões. Mas seria interessante ver Lúcia, a menininha que abre as portas do mundo de Nárnia no primeiro episódio, amadurecendo um pouco mais.

Na Viagem do Peregrino da Alvorada, o Leão, Aslam, avisa que também faz parte do mundo real, vivido pelos irmãos, e diz que eles precisam aprender a reconhecê-lo. Bem, aí retomo a parte inicial do artigo.

O escritor irlandês C.S.Lewis sempre deixou claro sua intenção de fazer da série uma espécie de apanhado moral e cristão às crianças, utilizando um universo de contos de fadas, agregado a mitologia nórdica e grega.

A mistura talvez explique a idéia de mostrar Cristo como o Leão.

Agora vamos para as especulações. Acredito que todos sabem que Jesus não nasceu no dia 25 de dezembro. A data foi criada pela Igreja Católica para neutralizar outras comemorações consideradas pagãs, como a data em que a Mãe Terra dá à luz a "criança Sol", que viria para anunciar um novo tempo, da Mitologia celta. Ou a comemoração do nascimento de Dionísio, na Grécia antiga. Ou ainda a comemoração do nascimento de Horus, no Egito antigo. De Krishna na, Índia ou de Mithras na Pérsia.

Não vou nem entrar no mérito de que todos esses deuses tratam de um mito solar, muito próximo ao de Cristo. São deuses que vencem o mal, de alguma forma espantam as sombras e falam da redenção humana.

O Leão tem uma relação profunda com a consciência. Na astrologia é o símbolo do sol, da identidade, da alma. Significa generosidade e aquele que é capaz de doar a vida em prol dos demais. É o rei. Não da floresta, mas do sentido de ser.

Por isso não é de estranhar que C.S.Lewis em 1950 resolvesse resgatar símbolos outrora perdidos, mas ainda vistos como positivos, para falar à psiquê dos pequenos. O estranho é que hoje em dia parte das igrejas vejam nesses simbolismos o desvirtuamento do ensinamento cristão. Vale a ressalva: não é um símbolo que pode destruir o verdadeiro sentido do que é ser cristão, mas a não observância dos preceitos religiosos por aqueles que se dizem guardiões dessa moral.

O símbolo, ao contrário de deturpar ou diminuir, pode enriquecer uma idéia agregando muito mais força do que é possível fazer com algumas palavras. Eles falam diretamente com imagens ao inconsciente. Imagens que nem sempre podem ser traduzidas numa frase.

Por tudo isso, A Viagem do Peregrino da Alvorada é um belo filme, apesar do roteiro fraco e das atuações unidimensionais. Vale como entretenimento de fim de ano. E o título é um achado, já denuncia um amanhecer qualquer capaz de redimir o viajante cansado.

Sim, a título de curiosidade: Liam Neeson faz a voz de Aslam.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Julian Assange (do WikiLeaks), terrorista ou herói?

Julian Assange, o mais ilustre fundador do site WikiLeaks, está sendo caçado como criminoso na Suécia. Segundo a justiça daquele país, em agosto o ativista teria estuprado duas mulheres. O advogado do australiano afirma que o sexo feito com as mulheres foi consentido, não houve estupro. Assange atribui tudo a perseguição política.

Um tablóide sueco teve acesso as denúncias das duas mulheres que acusam Assange, ambas com idade por volta dos 20 anos. Lendo o relato, fica claro que as mulheres foram usadas pelo australiano. Entretanto, pelo menos para mim, não houve estupro. As mulheres parecem ressentidas, se sentindo traídas e abusadas – ele transou com as duas praticamente nos mesmos dias, sem que uma soubesse da outra e ainda obteve favores econômicos (Leia a matéria)

No quesito sexo e relacionamento, Assange lembra o comportamento de muitos homens egoístas famosos, que são assediados por mulheres e acabam conseguindo favores sexuais delas e depois perdem o interesse. Acham que estão fazendo o favor em depositar seu sêmen precioso e iluminado no 'receptáculo feminino'. É a velha busca masculina pela auto perpetuação.

A atitude é de um homem machista, sem dúvida, e sem nenhum sentido de preservação ao próximo, mas não de um criminoso deliberado, nem de um maníaco sexual de alta periculosidade.

Vale ressaltar que na época uma promotora não viu indícios de estupro e arquivou o caso. Contudo, depois dos inúmeros ‘cabos’ (como são chamados os dossiês e comunicados) secretos entre diplomatas norte-americanos divulgados pelo WikiLeaks, a acusação voltou a ser analisada. Assange foi acusado internacional e preso na Inglaterra. Conseguiu relaxamento da prisão e agora pode se defender em liberdade, sem sofrer extradição, por enquanto, após pagar uma fiança de 200 mil libras (cerca de R$ 530 mil).

O diretor de documentários norte-americano Michael Moore, o cineasta britânico Ken Loach e a socialite Bianca Jagger estão entre os que contribuiram para se chegar ao montante. Na saída da prisão, Assange e fez uma curta declaração: “Se nem sempre se alcança a justiça, ao menos ela ainda não está morta".

Nos EUA, a revista Time abriu enquete para a eleição da Personalidade do Ano. Assange é o mais votado. Em contrapartida, pesquisa divulgada pela TV norte-americana aponta que 6 de cada 10 pessoas ouvidas considera que o ativista deve ser indiciado e tem prejudicado os interesses do país.

Assange se gaba de estar prestando um serviço à comunidade internacional e ressalta, com estranheza, como a mídia tem sido conivente com o status quo existente. Ele afirma que o WikiLeaks divulgou mais informações bombásticas e sigilosas, deixando a nu a política internacional, do que toda a mídia junta nos últimos anos.

Veja breve entrevista de Assange no El País:




A tática do WikiLeaks é de terrorismo. O site se hospeda em países diferentes dia a dia, e os informantes tem sua integridade resguardada como um tesouro inviolável. Assange evita usar cartões de crédito para não ser rastreado e exerce uma aura de líder idealista e utópico nos que o rodeiam.

O ‘moço’ tem um quê de herói, desses heróis contra-cultura e contra o Sistema, bem ao estilo do filme V e de Matrix, dos irmãos Wachowski. Mas é um herói que não se furta em jogar com o terror, ao divulgar informações onde coloca a vida de algumas fontes norte-americanas sob risco.

Entretanto, não é justo chamá-lo de homem bomba, como ilustra a capa da Revista Veja desta semana. Bomba é o domínio das grandes potências sobre o mundo. Assange apenas põe isso a nu. Nesse quesito, em revelar os interesses que rolam nos bastidores, ele tem mérito e deve ser respeitado. O que não significa que o homem seja um santo... Recentemente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) questionou porque ninguém saiu em defesa do ‘garoto’ (o cara tem 39 anos). Foi a única voz mundial que se ouviu, fora os artistas, hackers e uma ou outra ONG. Não deixa de ser estranho isso.

Depois da divulgação dos ‘cabos’, a diplomacia norte-americana parece ter resolvido passar um tempinho com ‘as sandálias da humildade’. Eles admitem um duro golpe com a divulgação das correspondências. Se toda essa fofoca que foi espalhada na Net servir para uma mudança de postura norte-americana no mundo, será um avanço bem vindo. Mas duvido. É mais fácil prenderem ou matarem Assange, evitando novas revelações.

Contudo, o ciber ativista tem do seu lado inúmeros hackers, que já demonstraram o poder de fogo ao atacar os sites da Amazon.com e da Visa, como represálias aos achaques contra o WikiLeaks. Do outro lado, já conseguiram provar que o australiano não é tão limpo assim como se pensava...(é pelo menos um machista aproveitador de 'indefesas' loiras suecas) A luta é difícil, e Assange tem muito menos possibilidades, mas uma coisa está provada: Nada mais será como antes depois do WikiLeaks.

O site hoje é a máxima expressão da liberdade de imprensa. Uma imprensa sem país, sem leis e pronta a botar no ventilador a sujeira mais bem guardada. No momento, tem um alvo político bem específico: os Estados Unidos da América. E, definitivamente, a semelhança com o ataque de 11 de setembro é impressionante. Desta vez o ataque aconteceu no dia 28 de novembro de 2010, data da divulgação dos ‘cabos’ diplomáticos.
Entramos numa nova era...


Conheça um pouco mais de Julian Assange:





quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Os 12 trabalhos de Ricardo Coutinho na Paraíba

A tarefa de Ricardo Coutinho a frente do governo da Paraíba é digna dos 12 trabalhos de Hércules. E não há exagero aí. Segurança, Educação, Saúde, Funcionalismo, Estrutura Sucateada do Estado, Saneamento Básico, Estradas, Porto e Aeroporto (encaro os dois como uma coisa só:escoamento de produção e turismo), Articulação Política, Mídia, Cultura e Cagepa (a instituição, nada a ver com saneamento). Cada um desses temas é um angu de caroço. Fácil de perder o ponto e degringolar e difícil de arrumar.

Agradar a todo mundo vai ser impossível, assim como resolver esses nós em quatro anos. Mas é possível dar uma direção um pouco mais arrumada, pelo menos. Se bem que o problema do estado brasileiro é de berço, histórico. Tinha que tocar fogo e começar tudo de novo, mas aí o estrago seria grande. Melhor ir levando o sistema até quando der...

O novo governador da Paraíba já começou a anunciar sua equipe de governo. Deu o ponta pé inicial pelo twitter, revelando os nomes da nova Segurança Pública do estado. Primeiro é preciso anotar o veículo escolhido por Ricardo Coutinho para fazer o anúncio em primeira mão: o twitter.

É sem dúvida um novo tempo e uma forma de prestigiar essa galera – o novo governador tem mais de 15 mil seguidores no twitter e esse número é multiplicado exponencialmente quando os seguidores repassam as informações. Esta é, sem dúvida, uma forma do governador admitir a força das redes sociais em sua campanha e um recado para outra ala bem específica que foi seu calcanhar de Aquiles durante a campanha: a Mídia.

Mas vamos ao que interessa. Primeiro, não pretendo tecer comentários sobre as escolhas, simplesmente porque não conheço os escolhidos. Apenas torço para que eles consigam diminuir o índice de violência no estado. É bom lembrar que o nível de violência de João Pessoa é quase igual ao do Rio de Janeiro. Apenas para ficar num dado divulgado recentemente pelo IBGE, a proporção de mortes violentas de homens em relação às mulheres tem seu pico no Rio de Janeiro, onde 5,5 homens morrem por causas violentas para cada mulher. A Paraíba fica em segundo lugar, empatado com Alagoas e Bahia (com 5,3). Pernambuco é o terceiro felizardo dessa lista negra (com 5,2).

Mas não é preciso ler os índices do IBGE para constatar a violência na Paraíba, é só ler as manchetes dos jornais, das TVs e dos portais. O número de mortos a cada semana. A violência é generalizada, com maior ênfase na Capital e em cidades como Campina Grande, Patos, Santa Rita e Bayeux.

Como Coutinho falou em seu pronunciamento, realmente é preciso que a inteligência da Polícia Civil FUNCIONE e consiga desbaratar gangues e esse esquema onde hoje os bandidos mandam em bairros e ruas. Não dá para existir mais picuinhas entre as polícias enquanto os cidadãos morrem em frente as delegacias, shoppings, suas casas, shows, no trânisto e no ônibus. Queremos paz e principalmente: parar de achar que encontrar com um policial é sinônimo de problema, não solução.

Vou confessar: olhei para a operação de retomada do morro do Alemão, no Rio de Janeiro, desejando que algo parecido pudesse acontecer no Bairro São José, na Capital. Tá, talvez não seja preciso fazer exatamente isso, mas precisamos sim re-socializar bairros como Renascer, Padre Zé, Alto do Céu, Alto dos Populares e Bairro São José, só para ficar em alguns mais carregados da região metropolitana de João Pessoa. Afinal, não dá para continuar com uma taxa é de 55 mortos por 100 mil habitantes (essa é a taxa de João Pessoa), quando a ONU considera aceitável até 10 mortos por 100 mil habitantes. O negócio tá brabo.

O novo governador tem alguns trabalhos indigestos pela frente. Talvez um dos maiores deles seja mesmo a Segurança. Por isso, ele fez bem em antecipar a anunciação, prevenindo uma ‘terra de ninguém’ na PM, Polícia Civil (PC), e Corpo de Bombeiros que pode se instalar com o vácuo do poder com Natal e Réveillon se aproximando.

Ele já deu indícios de como será a relação com o funcionalismo quando disse estranhar que o Corpo de Bombeiros fique ‘aquartelado’ esperando um evento que raramente acontece (incêndio) e apontou a defasagem de equipamentos da corporação.

Alertou para a necessidade de trabalho e dedicação de PMs e PCs e afirmou que quer soldados na rua, nada de fazer trabalho burocrático. PEC-300, não é prioridade, mas se for LEGAL pagar ele não se furtará. Foi uma fala esclarecedora. O governador eleito deixa claro que vai cobrar trabalho do funcionalismo e possivelmente quererá que a máquina do estado passe a funcionar os dois expedientes.

Coutinho já afirmou também que não entende como existem vários órgãos do governo fazendo o mesmo trabalho. Ele vê nisso acúmulo desnecessário de função e inchaço da máquina pública. Para bom entendedor... isso significa que o socialista está acenando com enxugamento da máquina e fusão de órgãos: podem estar na mira IDEME, PRODETUR, FINANÇAS... Bem, RC pode deixar para mexer nisso também só num momento adiante, afinal, são muitas mudanças para implementar.

Articulação Política – Um vespeiro difícil de mexer é a arrumação política exigida pela composição de governo. Uma arrumação que precisa absorver siglas como PSDB, DEM, PTB, PV e PTN. Claro que as três primeiras têm mais prioridades e trabalharam mais ativamente na campanha.

O ex-governador Cássio Cunha Lima (PSDB) esteve durante o pronunciamento de Coutinho nesta terça-feira (14) sentado ao lado direito. A cara estava um pouco fechada, mas a sinalização é clara: o campinense participa ativamente do novo governo, tem vez e voz.

Efraim Morais (DEM) anda sumido, o que é estranho. Mas o socialista irá pagar a fatura política do apoio de primeira hora, não tenho dúvida disso, ainda mais agora com o senador prestes a ver-se sem mandato.

Outro que merece atenção é o prefeito de Sousa, Fábio Tyrone (PTB). O petebista foi uma das luzes no sertão que alumiaram o caminho de Coutinho e o peso e a articulação de Tyrone foram uma somatória preciosa à campanha.

Tyrone quer um olhar mais atento do Governo do Estado ao Sertão. O danado é fazer isso, sem perder de vista as carências dessas duas gigantes (JP e CG) que também foram tão importantes na eleição.

Mas o prefeito de Sousa também tem razão ao querer que o governo saia do foco de João Pessoa e Campina Grande e se volte mais para o interior. A economia do estado está cada vez mais da borborema ao litoral, causando migração e o surgimento de favelas, mais violência e mais problemas insolúveis...é preciso fazer com que o homem do campo fique no campo e o das cidades do interior fique no seu lugar de origem. E só há uma forma de fazer isso: melhorando as condições de serviços prestados pelo governo e dando mais oportunidades de emprego e renda a esses cidadãos.

Coutinho precisa lembrar que cerca de 60% dos seus votos vieram das pequenas cidades do interior e do sertão. Esse é um povo ávido por atenção. Sabemos que a Paraíba é um estado miserável como um todo - com muitas riquezas, é verdade, mas por enquanto tristemente miserável -, todavia é depois da Borborema que ela é desperadoramente necessitada.

Estou dizendo, o trabalho é hercúleo e exige eficiência matemática.

Bem, durante o anúncio dos novos nomes da segurança paraibana, Coutinho fez questão de ler os currículos. Ele quer deixar claro: a indicação política não é problema, mas é preciso que o indicado seja gabaritado para o cargo. Anotado, RC.

Coutinho começou o anúncio mexendo em Segurança, Mídia, Funcionalismo e Articulação Política. Até o momento a sinalização é pra lá de interessante e nova no formato.

Assim, voltando a metáfora com Hércules iniciada neste artigo, Coutinho primeiro está atacando a Hidra de Lerna (a Midia), aquela que você arranca uma cabeça e aparecem mais duas. Está querendo dar um jeito no Leão de Neméia (Segurança), aquele que com os instintos soltos tem o poder de espalhar o terror e destruir, mas domado é capaz de ser um exímio escudo de proteção. Está tentando domar Cérbero (o Funcionalismo), o cãozinho de três cabeças de Hades. É esse cãozinho que guarda a entrada do submundo... Por último, Couitnho tem se esforçado para limpar os Estábulos do Rei Aúgias (Articulação Política). Vou te contar: é muita merda pra limpar...

Sorte e sucesso ‘Mago’.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O belo e doloroso ‘O Segredo de Brokeback Moutain’

Bem, resolvi postar algumas críticas de filmes com temática gay. Vi que um público substancial tem demonstrado interesse pela crítica do filme 'Do Começo ao Fim', por isso, prometo alguns filmes mais...a começar por este.

Os lamentos de um violão acompanham um caminhão cortando um horizonte praticamente vazio. Ainda de madrugada, Ennis Del Mar (Heath Ledger) salta do automóvel. Ele está em Signal, no Wyoming, em busca de trabalho para o verão. Del Mar espera em frente ao trailer do empregador boa parte da manhã, carregando consigo apenas um saco de papel, uma jaqueta surrada e um chapéu. É um típico caubói. Ele fuma e antes de terminar o cigarro, o apaga. Guarda o restante para tragar mais tarde.

Jack Twist (Jake Gyllenhaal) chega numa caminhonete preta velha. Saí e chuta o carro que foi até ali dando explosões pelo cano de escape. Vira-se e vê Ennis meio cabisbaixo. Tenta se aproximar, mas o outro abaixa ainda mais a cabeça. Jack pára curioso e retorna um pouco. Escora-se no carro numa pose sedutora, olhando para o rapaz, perscrutando-o. Os dois não trocam nenhuma palavra. Só vamos ouvir a voz de Ennis e Jack depois de 6 minutos de começado o longa. Até então, apenas silêncio, olhares, música, sons ambientes e as indicações do que é preciso para o trabalho, ditas por Joe Aguirre (Randy Quaid), o empregador.

Foi assim que o cineasta tailandês Ang Lee nos inseriu no universo de ‘O Segredo de Brokeback Mountain’ (Brokeback Mountain/2005). Um mundo que acabou fisgando milhões de pessoas com seu drama, ganhando vários prêmios, entre eles o Leão de Veneza, o Bafta e o Globo de Ouro de melhor filme. Também ganhou o maior número de indicações ao Oscar daquele ano (oito), apesar de perder a prêmio principal para Crash, ganhou o Oscar de direção, roteiro e música. Ang Lee já havia demonstrando sua maestria incontestável com filmes como O Tigre e o Dragão, Razão e Sensibilidade e Banquete de Casamento, mas foi Brokeback que o alçou definitivamente a linha de frente da cinematografia mundial.

Essa apresentação dos dois personagens principais é perfeita. Dá pistas do quê veremos a seguir: dois homens solitários, um extremamente introspectivo e outro expansivo, que isolados numa paisagem ao mesmo tempo inóspita e paradisíaca, construirão um laço de amor e dependência que os marcará de forma quase trágica.

O roteiro, magnífico, foi feito por Diana Ossana e Larry McMurtry no final da década de 1990, adaptado do conto homônimo de Annie Proulx. A fidelidade da adaptação ao clima do conto é impressionante. Na verdade o filme consegue trazer mais luz ao romance de Ennis e Jack, do que o conto. A história concebida por Annie Proulx é muito mais contida, cheia de períodos curtos.

As interpretações de Heath Ledger e Jake Gyllenhaal seguram o filme no fio da tensão amorosa e da angústia de uma relação que em nenhum momento é plena, muito pelo contrário, é cheia de saltos no vazio e na solidão. Ledger constrói um Ennis contido, como um animal selvagem, arisco, machista, por mais absurdo que possa parecer a afirmação. O homossexual criado pelo ator australiano é intenso, extremamente viril, como se a virilidade fosse seu apoio para fugir de qualquer traço de feminilidade. É um homem rude, de diálogo mínimo, fisgado numa paixão impossível de ser negada. Esse conflito é demonstrado com maestria no jeito cada vez mais contido e monossilábico de Ennis do início ao final do filme. O rapaz só parece livre durante os dias de Brokeback e nos encontros iniciais com Jack, quando ele realmente desabrocha e brilha mais solto. Essa transmutação feia por Ledger é realmente bela.

Já Gyllenhall é o que mais se aproxima da ideia - já explorada a exaustão pelo cinema - do estereotipo de um homossexual mais feminino. Ainda que a composição de Jack Twist também consiga passar longe de qualquer ideia de um homem com trejeitos. Gyllenhall faz um personagem expansivo, igualmente apaixonado, mais muito mais consciente de suas necessidades e desejos sexuais. Mas é inegável que ele é bem menos bruto que Ennis, e por isso, na contraposição, mais delicado.

Veja o trailer:
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Outro ponto alto é a trilha sonora de Gustavo Santaolalla, seus trinados melancólicos reforçam a ideia de dor e separação expressa pelo filme. Também merece menção a interpretação de Michelle Williams, fazendo Alma Beers, esposa de Ennis Del Mar. Anne Hathaway deixou a desejar como Lurren Newsome, esposa de Jack Twist.

Teoria - Uma vez ouvi uma teoria que dizia que Ennis representava o amor de um homem por outro, o que se aproximaria hoje do que chamam de Bromance - a amizade/amor entre dois homens -, enquanto Jack seria o homossexual clássico. É interessante essa ideia, já que o próprio Ennis deixa claro que não sente atração por outros homens, apenas por Jack. Em determinado momento Ennis chega a acusar Jack de tê-lo colocado numa situação de sofrimento ao despertado nele o amor. A teoria até faz sentido ao percebermos que o caubói era extremamente solitário e parece que só conseguiu estabelecer uma química com outro ser humano apenas ali, dentro do universo de cavalos, ovelhas e isolamento – uma espécie de habitat natural, diga-se. Assim, o amor por Jack funciona como a descoberta de Ennis de uma interação/alquimia quase espontânea entre pessoas com interesses e experiências semelhantes. A impressão que dá é que Ennis não acreditava que uma intimidade assim fosse possível.

Olhando por essa ótica, Brokeback questiona o quê é ser homossexual. O filme também tenta jogar luz sobre o amor quando ele desabrocha entre duas pessoas de mesmo sexo numa sociedade preconceituosa.

Todavia, olhando pela ótica de um casal gay, simplesmente, o filme é extremamente pessimista. Homofóbico até. Ele avisa: não há final feliz possível para uma relação entre dois homens, apenas dor, sofrimento, solidão, abandono...e, às vezes, até assassinato... Tudo bem, tem um ou outro momento de prazer.

Mas creio que Ang Lee queria falar apenas de como era difícil o amor entre iguais na segunda metade do século XX, de 1963 a 1980. É bom frisar que quando Ennis e Jack se encontram, ambos tem menos de 20 anos.

Mas voltando à história - No filme, os dois, Jack e Ennis, são contratados para pastorear um rebanho de ovelhas por dois meses. Ang Lee é um exímio contador de histórias e em poucos minutos ele vai montando o painel da vida dos dois protagonistas. Ennis é um homem paupérrimo, simples, órfão de pai e mãe, criado pelos irmãos mais velhos e prestes a casar com Alma Beers (Michelle Williams).

Jack é um peão que vive dos rodeios, arrancando trocados ao se sustentar em cima dos lombos dos touros, também é pobre, mas vive em melhores condições que Ennis e é muito mais esperto. Enquanto Ennis é quase unidimensional em sua brutalidade, Jack parece ter mais nuances. Ennis é um caipira, com motivações simples e diretas. Jack é descolado e tem um olhar perigoso. Parece sempre à procura de algo. Há uma espécie de abismo no olhar do moço, às vezes insondável. É impressionante como na história, Jack leva Ennis as profundezas do abismo, mudando completamente sua estrutura.


A primeira cena em que Ennis e Jack transam acontece depois de uma bebedeira. Há um momento de suspense, como se Ennis se perguntasse o que quer, até que toma uma atitude: vira Jack, o coloca de quatro e lhe penetra. A cena é dura, quase uma luta, seca, cheia de ânsia, tesão e acontece toda na penumbra... No dia seguinte Ennis sai cedo, vê uma ovelha com as entranhas devoradas por um lobo. Como uma metáfora. O lobo que rondava as ovelhas, enfim conseguiu seu intento e a devorou. Não há mais volta.

Há duas cenas no filme que são poderosas. A primeira é quando Jack e Ennis se despedem de Brokeback. Jack tenta tirar de Ennis alguma promessa de reencontro sem sucesso até que eles se despendem sem nem apertar as mãos. O carro de Jack avança pela estrada e pelo retrovisor ele vê Ennis caminhando. Quando o carro desaparece Ennis se curva, parece que está com dor, ele tenta vomitar, mas não sai nada. Então chora. Parece uma mistura de angústia e amor. A impressão é que a prostração significa não só a descoberta do amor, mas também da dor da despedida. É como se ele lutasse consigo mesmo para não correr atrás de Jack.

A outra cena acontece quase 20 anos a frente. Depois de uma discussão Jack confessa que não suporta passar muito tempo sem sexo e diz: ‘Queria saber como te deixar’. A fala deflagra uma crise de choro de Ennis que acusa Jack de tê-lo transformado uma pessoa sem raízes: ‘Não sou nada, não tenho lugar’. Os dois ensaiam um briga, mas acabam se abraçando.

A cena leva a Jack lembrar o início de tudo, em Brokeback Mountain. Jack está em pé em frente a fogueira e Ennis o agarra por trás: ‘Agora você dorme em pé como um cavalo? Minha mãe costumava dizer isso quando eu era pequeno e cantava...’ Ennis cantarola algo ao ouvido de Jack e depois sai a cavalo. É a lembrança que nos dias de Brokeback Moutain não havia medo, apenas a liberdade do amor de um pelo outro, sem amarras. Nesse momento fica claro que foi isso que conquistou Ennis e era isso que Jack buscava ao viajar 14 horas do Texas ao Wyoming.

No final, quem mais amadurece no processo realmente parece ser o caubói introspectivo idealizado por Ledjer, que acaba entendendo o significado profundo das mudanças que a vida lhe trouxe através de Jack. É bela a cena de Ennis depois de falar com a filha, enquanto olha para um poster de Brokeback e um cabide com as camisas dele e de Jack penduradas. Ele diz: 'Eu prometo, Jack'.

Parece uma promessa dita em lembrança do amor. Resta a pergunta: é a promessa de que nada mais o impedirá de viver as emoções que têm guardadas? Que não colocará mais barreiras entre o que sente e as pessoas que o amam e que ele ama? Não dá para dizer qual é a promessa de fato. Ela fica como uma incógnita. É um filme que deixa várias questões em aberto. Esse é um dos motivos que o torna tão forte.

É um filme poderoso, belo, que se afasta dos clichês e busca resumir as dificuldades de o amor entre dois homens, as impossibilidades que cercam e já cercaram essa relação, além dos profundos conflitos internos existentes. Vale ressaltar também que a relação expressa no filme entre dois caubóis casados e com filhos, projeta uma vida comum entre os homossexuais enrustidos ainda hoje - em menor escala, é claro. Uma vida dupla que era (é) profundamente infeliz.

Assim, Ennis ao não conseguir conciliar seu desejo e sua expressão social acaba destruindo ou fazendo infeliz Jack, Alma, a si mesmo e as filhas. É verdade que a escolha de Ennis é um desejo de não constrangir sua esposa e filhas, mas é, no fundo uma escolha que leva ao psicanalista, se não dele, dos que os cercam. É uma escolha que leva a palavras não ditas e emoções reprimidas. É uma escolha que no fundo é convarde e mostra a profunda falta de estrutura emocional de Ennis...

Mas tem mais, ao focar no amor, Ang Lee vai além de uma relação homoerótica, fala das relações humanas e das destruições, mágoas, frustrações que cercam os amores mal resolvidos e cercados por estúpidas regras sociais. O conto e o filme deixam uma lição: o medo apriosiona aé mesmo o amor.

Por tudo isso, recomendo.

Vídeo - matéria da TV norte-americana com entrevista com atores:

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terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A boa surpresa de Scott Pilgrim


O filme Scott Pilgrim (Scott Pilgrim Contra o Mundo, 2010) é uma viagem. Melhor dizendo, duas. Primeiro uma viagem para dentro do universo do game, segundo, um mergulho conceitual sobre a vida até os 25 anos. Há no filme uma adolescência esticada além do racionalmente aconselhável.

Apesar disso, o longa manda recados muito bem vindos, na forma livre dos relacionamentos afetivos. Não é difícil de perceber que essa vida expressa em Scott Pilgrim não é só uma idealização das ânsias dessa nova juventude que surge no mundo, mas também um espelho – ainda que não totalmente fiel – de uma realidade.

O universo do filme é artificial, superficial, quase em tirinhas, mas irresistível. Scott (Michael Cera) é um rapaz de seus 22 anos, pintado como um galinha contumaz desde que foi chutado por sua última namorada - uma namorada que trocou de nome, namorado e faz sucesso com uma banda de rock. A fama de pegador não combina muito bem com o ator Michael Cera, mas o jeito nerd do ator, até imprime um charme diferente à idéia de homem que faz sucesso com as mulheres.

Pilgrim também tem uma banda de garagem – na verdade eles tocam na sala –, é baixista da Sex Bomb-Omb e está em busca do sucesso.

Após o fora da namorada, ainda vivendo o limbo do fim da relação, Pilgrim passa por uma lista imensa de garotas (isso é apenas mencionado no filme), e termina por namorar uma secundarista de 17 anos, Knives Chau (Ellen Wong), descendente de chineses. É o fundo do poço de uma espécie de falta de auto-estima.

O nosso protagonista divide um apartamento – o qual chama de esconderijo secreto – com um amigo, Wallace Wells (Kieran Culkin). Na verdade Pilgrim divide a mesma cama – sem nenhuma conotação sexual. Wallace é um gay divertido, um tanto esnobe e, às vezes, uma espécie de grilo falante para Pilgrim.

Tudo corre aparentemente numa pasmaceira monocórdia até que o baixista sonha, literalmente, e posteriormente se encontra com uma moça de cabelo rosa: é Ramona Flowers (Mary Elizabeth Winstead). A atração é imediata. Todavia, para ‘ganhar’ Ramona, Scott precisa enfrentar a liga dos sete ex-namorados do mal da garota. Aí começam as lutas dignas de super-heróis, num quê de universo virtual e game - com direito, inclusive, a vida extra, como acontece nos games. As lutas, apesar de absurdas são sempre vistas com extrema naturalidade pelos coadjuvantes do longa. Essa naturalidade é também outro charme do longa.

"Scott Pilgrim" conta uma história básica de amor juvenil, mas o filme não é só isso. Investe no significado de amor que vai contra a idéia do socialmente aceitável – vale notar que Ramona sempre namorou personagens à margem e seus cabelos multicoloridos reforçam sua conotação underground ou alijada da sociedade.

A história também fala de um tipo de amor onde tatuagens, piercings, relações fulgazes, homossexualidade, não são mais dignas de nenhuma crise existencial nem brigas familiares homéricas. É um novo mundo, com certeza.

Um outro aspecto do filme são as onomatopéias. É mangnífica a mistura entre quadrinho e cinema e quando a banda de Scott toca a viagem é completa. É delicioso tanto ver quanto ouvir. Cada acorde de guitarra, as batidas da bateria de Kim Pine (Alison Pill), o baixo de Scott, o vocal de Stephen Stills (Mark Webber), junto com as onomatopéias, transportam para o universo do quadrinho. E tudo fica mais divertido ao ouvir as músicas de letras mínimas.

A montagem investe em cortes rápidos, secos e na maioria das vezes, fabulosos, criando passagens de cenas dignas de games, mas ao mesmo tempo bastante inventivas.

É verdade que é possível dizer que os ex-namorados do mal são como sombras que Scott precisa vencer para realmente ficar com Ramona por inteiro, mas o filme não exige complicadas conceituações da realidade, pede apenas diversão, quase como um pensamento adolescente. Uma bela surpresa.

Curiosidades - Lançado em 2004 pelo quadrinista canadense Bryan Lee O’Malley, à época com 25 anos de idade, a primeira das seis edições de Scott Pilgrim (o nome tem origem numa música da osbcura banda Plumtree) deu início à saga do jovem universitário que mora no tedioso Canadá, divide apartamento com um amigo homossexual, joga videogame, toca numa banda de rock de garagem, faz compras pela internet e não encara a vida com empolgação digna de nota – até se apaixonar perdidamente por Ramona Flowers, uma garota descolada recém-chegada de Nova York.

O compositor Jeff Beck participou ativamente de toda a trilha sonora, inclusive compondo a música “Ramona” e emprestando seu tecladista, Brian LeBarton, para criar uma versão 8-bit digna de um clássico do GameBoy.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A favor do Wikileaks, contra a língua solta norte-americana


O site Wikileaks entrou num furacão diplomático. Fundado em 2006 e trazendo inúmeros furos de reportagem desde então, o site tem amealhando vários prêmios internacionais. No site, a organização informa ter sido fundada por dissidentes chineses, jornalistas, matemáticos e tecnólogos dos Estados Unidos, Taiwan, Europa, Austrália e África do Sul. Seu diretor é o australiano Julian Assange, jornalista e ciberativista.

Entre as informações mais quentes apresentadas pelo site estão a divulgação do Afghan War Diary, uma compilação de mais de 76.900 documentos secretos do governo norte-americano sobre a Guerra do Afeganistão. Mostrando o fracasso da missão dos EUA naquela país. Também foi divulgado um pacote com quase 400.000 documentos secretos, denominado Iraq War Logs, reportanto torturas de prisioneiros e ataques a civis pelos norte-americanos e seus aliandos, na Guerra do Iraque.

Mas a partir do dia 28 de novembro de 2010, o WikiLeaks – wiki é o termo utilizado para um site onde o conteúdo é construído de forma compartilhada – começou a publicar 251.287 telegramas de embaixadas americanas pelo mundo - o maior vazamento de documentos confidenciais da história.

Por conta desse vazamento, Julian Assange teve um pedido de prisão internacional expedido. A acusação: um suposta estupro cometido na Suíça. Assange nega e diz que tudo não passa de perseguição e pressão internacional por conta dos documentos. O site Amazon.com, que tinha um link para Wikileaks retirou a conexão por pressão norte-americana. A companhia EveryDNS.net, que abrigava o site, disse que decidiu tirá-lo do ar para não comprometer seus outros serviços. Agora o site pode ser acessado através de outro link, ainda na Suíça : WIKILEAKS (Há textos em português. Existe também um outro link com hospedagem na Alemanha http://wikileaks.dd19.de/).


A sensação, desde que as informações ganharam a mídia, é que estamos envolvidos numa imensa fofoca internacional. Uma fofoca que mostra como os norte-americanos tem uma visão nada respeitosa em relação aos outros países e seus líderes.

Para a organização, os documentos vão permitir que pessoas de todo o mundo conheçam a fundo como funcionam as atividades americanas no exterior.

Os telegramas, que cobrem desde 1966 até o final de fevereiro de 2010, contêm informações confidenciais enviadas por 274 embaixadas em diversos países e pelo Departamento de Estado em Washington para essas embaixadas.

Do total, 15.652 são classificados como secretos.

"Os telegramas mostram os EUA espionando seus aliados e a ONU; ignorando a corrupção e abusos de direitos humanos em Estados ‘serviçais’; negociando a portas fechadas com Estados supostamente neutros e fazendo lobby em prol das corporações americanas”, diz o porta-voz da organização, Julian Assange.

Os documentos tratam de política e economia, principalmente. O assunto mais discutido é o Iraque. "A publicação desses documentos revela a contradição entre a persona pública dos EUA e o que a potência faz por debaixo dos panos. E também provam que, se os cidadãos querem que seus governos hajam de acordo com as suas aspirações, devem exigir explicações sobre o que acontece às escondidas", diz Assange.

"Toda criança americana aprende que George Washington, o primeiro presidente dos EUA, não conseguia mentir. Se as administrações atuais seguissem o mesmo princípio, o vazamento de hoje seria apenas um pequeno vexame" continua o fundador do site. "Em vez disso, os EUA têm alertado governos ao redor do mundo - até mesmo os mais corruptos - sobre a publicação de hoje e se armando para a exposição que fatalmente irão enfrentar."

Diferentemente dos outros lançamentos do WikiLeaks, nas quais uma grande quantidade de documentos foi publicada de uma vez, a organização vai lançar os arquivos das embaixadas ao longo das próximas semanas.

"Os telegramas da embaixada vão ser lançados em etapas. Consideramos que o tema é tão importante e o alcance geográfico tão amplo que se publicássemos tudo de uma vez não estaríamos fazendo justiça a esse material”.

Até agora, o Wikileaks publicou em seu site 220 de 251.287 documentos dos Estados Unidos com a transcrição de comunicações - conhecidas como cabos - entre instituições diplomáticas.

O site entregou antecipadamente os arquivos em sua íntegra a cinco grupos de mídia, entre eles os jornais The New York Times, americano, The Guardian, britânico, e El Pais, espanhol. Leia abaixo alguns dos pontos principais dos documentos divulgados.

Sobre o Brasil – No caso brasileiro, o WikiLeaks obteve 1.947 documentos enviados pela embaixada em Brasília entre 1989 e 2010. Desses, 54 são classificados como secretos e 409 como confidenciais.

Nos telegramas enviados pela embaixada norte-americana em Brasília e pelos consulados de São Paulo e Recife, mostram uma visão aparentemente conflituosa entre a visão brasileira de terrorismo na tríplice fronteira – o Brasil não considera o partido libanês Hezbollah e o palestino Hamas como facções terroristas, ao contrário dos EUA. Apesar dessa visão oposta o Estado brasileiro tem feito prisões secretas, segundo os documentos, sob acusações disfarçadas para não chamar a atenção da Imprensa e não aborrecer a comunidade árabe.

Os documentos também criticam o Plano Nacional de Defesa (PND) idealizado por Mangabeira Unger e instaurado por Lula. Segundo o embaixador norte-americano o plano é pouco produtivo quando aposta mais na troca de tecnologia, não há dinheiro suficiente para a implantação e o submarino nuclear é um ‘elefante branco’ sem utilidade. Todavia o embaixador vê com bons olhos a oportunidade de reequipamento do Exército Brasileiro. “Seria bom aos interesses dos EUA”, diz Clifford Sobel, que esteve no cargo de 2006 a 2010.

O documento aponta ainda o ministro Nelson Jobim como um simpatizante dos EUA, fazendo comentários nada elogiosos a um colega do Itamaraty. Alias, o Itamaraty é pintado como um órgão não simpatizante dos Estados Unidos.

O Brasil ainda é tido como paranóico em relação à soberania da Amazônia e acusado de não estar se preparando adequadamente para as olimpíadas de 2016.

A menções nada elogiosas há inúmeros países do mundo

Vários líderes árabes e seus representantes são citados no documento como tendo exortado os EUA a atacar o Irã. Em dos documentos o líder norte-coreano Kim Jong-il é descrito como "um camarada velho e flácido" que sofre com o trauma de um derrame, enquanto o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, é tratado como "Hitler".

Outros líderes também são analisados. O premiê da Itália, Silvio Berlusconi, é tratado como "displicente, vaidoso e ineficiente como líder europeu moderno" por um diplomata americano em Roma. O presidente russo, Dmitry Medvedev, como "um Robin do (premiê Vladimir Putin) Batman". E o presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, como "aquele velho maluco".

Os textos ainda deixam claro que o EUA faz espionagem de funcionários de alto escalão da ONU, que a China tem uma rede de hackers e especialistas em segurança desde 2002 que conseguiu acesso a computadores do governo e de empresas dos EUA, além de aliados ocidentais e do Dalai Lama. Os cabos ainda acusam o governo chinês de estar por trás da infiltração do sistema de computadores do Google no país em janeiro.

Depois de tudo isso, fica difícil acreditar que Julian Assange tenha realmente cometido algum crime, a não ser ferir os interesses dos poderosos de plantão.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O Largo da Gameleira e a fonte da Lagoa


João Pessoa está de parabéns. Cada vez mais sendo embelezada, a capital já pode começar a reclamar mais atenção dos turistas e de seus cidadãos. No final, quem usufrui, de fato, das melhorias na cidade no seu dia-a-dia.

As últimas obras entregues pela prefeitura da capital, sob a batuta de Luciano Agra, foram o Largo da Gameleira e a Fonte da Lagoa.

O Largo da Gameleira me tomou de surpresa. Lembrava apenas das manchetes nos jornais e portais falando da derrubada das barracas próximo ao Bahamas e esperava ver um entulho no local. Qual foi minha surpresa ao presenciar o espaço aberto do Largo e a visão do mar, antes escondidas pelas barracas feias da orla.

Além da visão gratificante do mar ao descer a Ruy Carneiro ou passar pela orla naquela área, ainda há, agora, um espaço mais largo para caminhar, salpicados de árvores. Perguntei-me de onde surgiram as árvores tão harmonicamente colocadas no Largo, depois me dei conta: elas sempre estiveram ali, mas estavam ocultadas pela balburdia de barracas, mesas e concretos.

O chão do Largo também foi modificado, agora é feito de tijolos intertravados nas cores cinza, preto e vermelho. Uma obra no seu centro, a ‘Saudação ao Sol’, do artista plástico paraibano Ercison Britto, terminam de compor a paisagem, bastante agradável, diga-se.

As obras na área resultaram no investimento total de R$ 1,4 milhão. A região da gameleira já tinha sofrido uma alteração anterior, quando o Mercado de Peixe recebeu um novo prédio, espantando de vez a fedentina do local.

A prefeitura também vem recuperando e alterando todo o calçadão de Manaíra. Retirou as barracas que serviam àquela praia e vem mudando o piso em toda a extensão.

A proposta de resgatar as áreas pouco valorizadas da orla de João Pessoa foi iniciada em 2005, ainda na gestão de Ricardo Coutinho, com a implantação do novo piso para o calçadão na orla de Tambaú e Cabo Branco. Também foi realizada a restauração da iluminação ornamental e, posteriormente, a construção de ciclovias, bem como o projeto de reurbanização da praia do Bessa, que contou com a pavimentação de ruas, calçadão, estacionamento e iluminação ornamental.

No que diz respeito à orla só há um problema: a prostituição de garotas e travestis. Não posso dizer que a retirada das barracas contribuiu para o aumento da prostituição, mas é verdade que o número de trabalhadores do sexo subiu consideravelmente. A freqüência de usuários – para os dois públicos – também é alta.

Tive a oportunidade de verificar a rotatividade dos travestis de uma das esquinas numa noite de sábado. Os rapazes trabalham a noite inteira. E os carros que param não são nada simplinhos...

Acho que eles ganham o dinheiro de uma forma honesta, apesar de na maioria das vezes degradante, são ‘de maior’ e livres para fazer com suas vidas o que acharem melhor. Mas, penso se não haveria alguma forma de resolver essa ocupação estranha da orla à noite. A prostituição é uma situação e um assunto delicado... É uma realidade, antes de tudo, que é praticada às vezes por necessidade, outras por prazer. E há ainda aqueles que fazem pelos dois motivos. Bem, não tenho idéia de como resolver isso, mas fica a constatação.

Sobre a fonte da Lagoa, confesso: vi apenas em vídeo. Mas já era tempo de dar um jeito na fonte acanhada que a Lagoa ostentava. Essa nova ferramenta com música e cores, também é uma novidade bem vinda.

A fonte do Parque Solon de Lucena tem jatos de água sicronizados com a música tocada nos sonofletes – caixas de som instaladas nos postes de iluminação do anel interno. O jato principal chega a atingir dez metros de altura. A nova estrutura conta com 17 conjuntos de moto-bombas, estrutura em fibra de vidro flutuante, 265 bicos aspersões, 57 refletores de 1000 W, casa de máquinas totalmente reformada e subestação de 300 KVA.

É um belo presente de fim de ano. Agora só falta resolver o trânsito. Esse dá dor de cabeça.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Uma viagem em direção à Consciência


Às vezes gostaria de apenas silenciar. Um silêncio tão profundo que nem sei. Uma vez desejei mergulhar no fundo do mar e ficar lá esperando os anos passarem. Hoje já não sinto mais essa vontade. Agora apenas penso no silêncio. Em como o silêncio pode nos assaltar.

Mas esse é um assalto bom, leva para longe o barulho, penso.

O intenso barulho do dia-a-dia. O ensurdecedor barulho das necessidades. Das bocas macaqueando ‘bom dia’. Dos sorrisos amarelos. Das brincadeiras envenenadas.

O desejo pelo poder, pela dominação, pelo viu metal, por uma relação afetiva, parece que move o mundo. Para qual direção? Essa reta tortuosa leva á solidão, que também assalta as pessoas, mas esse ‘mãos ao alto’, mas entristece que enobrece. Uma tristeza funda e dolorosa. Mas a solidão, enfim, move as pessoas a sairem da mesmice.

Para escapar dessa solidão o viajante invariavelmente chega ao sexo, ao alcool, às aglomerações públicas, igrejas. Ele liga o rádio, a televisão, assiste filmes, toma remédio, come, vai dormir. A crença é que no dia seguinte a vida importunará menos.

Vou contar um segredo: não há fim para a solidão. Não ficaremos juntos o suficiente, unidos o suficiente. Simplesmente porque só há uma união capaz de aplacar a solidão de fato, e essa união não pode ser mensurada pelo fato, essa é a maior de todas as ironias. Essa união trata do sublime e o que é sublime não pode ser tocado, medido, fotografado, engarrafado e muito menos explicado...

Não há almas gêmeas, não existe a união perfeita que envolva uma relação entre homens e mulheres. Aí não falo só da união entre um homem e uma mulher, mas qualquer tipo de casamento: heterossexual ou homossexual. Não há união perfeita entre os homens e os seus animais de estimação, nem entre os homens e o seu trabalho. Porque essas uniões, normalmente, servem para suprir algum grau de carência, de necessidade.

Essas relações podem diminuir o sentimento de isolamento, amenizar a solidão, mas haverá um momento, ou vários, em que a solidão irá olhar de novo e dizer: não é nada disso, não é esse o caminho.

Então, você vai se voltar para religião, vai rezar, vai freqüentar a Igreja, o Templo, o Centro Espírita, vai ler a Bíblia, buscando mais uma vez diminuir esse sentimento que ao mesmo tempo que é um buraco no meio do peito também sufoca.

Mas as respostas prontas da maioria das religiões só funcionam com uma parcela da população, outros, depois de um tempo, não vão se satisfazer com as respostas. Entenderão ali apenas um manual de sobrevivência no meio da barbárie. Mas fora a barbárie qual o caminho? Vão querer saber. As orações confortam, mas não impedem os conflitos, as dores, os desencontros, as confusões. E volta e meia lá está de novo a solidão.

Alguns não suportarão essa revelação, se tornarão hereges, ateus, se tornarão perversos, liberarão seus instintos e se deixarão ser possuídos por eles. Alguns se deprimirão até a morte, seja adoecendo ou buscando uma forma de acelerar ao máximo uma forma de partida. Querem descansar.

Mas não há descanso, mesmo do outro lado.

Aos poucos que persistem buscando a Verdade, vez ou outra um laivo de luz transpassará a atmosfera, mas será tão rápido, quase imperceptível...

Para estes, lentamente, algo irá acontecer com a escuridão. A princípio parecerá apenas uma mudança de tonalidade, mas com o tempo ficará claro que o escuro já não é tão escuro. O viajante se perguntará: será que meus olhos estão adaptados?

Não é possível dizer quando, nem como, mas raios de luz irão surgir e de uma forma natural a claridade se instalará. Como um nascer do sol. Sem sons de trombetas tonitruantes, sem hinos de anjos, sem arrebatações maravilhosas. Apenas o caminhar vigoroso do viajante solitário. Apenas a persistência corajosa do humilde vigilante cansado.

Com a continuidade do caminhar a claridade irá se tornar cada vez mais intensa, até não haver mais espaço para sombra alguma. Até o contentamento ser uma constante, até a união ser completa, até o amor ser um fluxo ininterrupto. Nessa altura o viajante não pede mais para si, suas orações abraçam a todos e esse amor o moverá montanha abaixo com outra missão: ajudar outros a subir. É hora de retornar.

Dizem que aqueles que encontraram a saída não retornaram para contar qual trilha percorreram. Mas milhares retornaram. Todavia, quando chegaram aqui não conseguiram traduzir em palavras sua experiência. Como traduzir o intraduzível? Como explicar para mentes limitadas e cheias de culpa, medo, conceitos, o que não é desse mundo? Assim nasceram as parábolas, os simbolismos, os hermetismos.

Ouvindo essas palavras, a maioria achará incompreensível os ensinamentos desses iluminados. Outros seguirão com devoção literal seus ensinamentos. Infelizmente, esses, provavelmente, não chegarão a lugar nenhum.

Com o tempo outros viajantes ouvirão aqueles ensinamentos e serão tocados, se sentirão perturbados. Vão reconhecer as pérolas. Vão recolhê-las. Amá-las. Alimentar-se-ão delas e seguirão a trilha deixada. Mas, nessa altura, depois de tanto tempo, essa trilha estará transformada de novo. Já não será mais a mesma viagem...

Às vezes, é preciso coragem para avançar, e avançar, em alguns momentos, significa ir contra o senso comum. Noutras vezes é seguí-lo, sem nunca achar que segue uma verdade absoluta.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Um ‘Harry Potter’ à beira do abismo

O novo filme da franquia Harry Potter mostra um mundo sombrio que tomou a realidade. Na primeira cena do longa vemos dois olhos em foco e um discurso inflamado a cerca da defesa da liberdade. É o Ministro da Magia que fala enquanto é ouvido e replicado por dezenas de jornalistas no saguão do Ministério. Não dá para não fazer um paralelo com ataques terroristas e ditaduras.

Assim começa a primeira parte do último capítulo da saga de Harry. Uma saga que vem sendo acompanhada por milhões de pessoas em todo o mundo.

Harry é um garoto que desde criança foi colocado sobre uma missão absurda – era um herói anunciado, odiado, invejado e amado, onde alguns depositavam suas maiores esperanças e outros suas desconfianças. O menino, órfão, criado por tios que o maltratavam, teve que amadurecer prematuramente e foi, sistematicamente, obrigado a enfrentar uma luta desigual contra um opositor descomunal.

A história, concebida pela escritora inglesa JK Rowling, contou durante dez anos, desde 1997, época da edição do primeiro livro, até 2007, quando foi editado o último, os sete anos da vida de Harry.

Hoje, quando chega aos cinemas a primeira parte do último livro, o mundo está transformado. Já viveu ataques terroristas, guerras insanas, crises econômicas, devastações por maremotos e terremotos. É inegável que a saga tenha sentido em sua estrutura um pouco dos ecos da realidade vivida por Rowling na vida real, ainda que os livros busquem sempre uma certa atemporalidade, assim como os filmes.

Contudo, Harry Potter reflete, antes de tudo, a clássica luta do bem contra o mal. No filme, assim como nos livros, é contada uma luta maniqueísta a princípio, mas que guarda eu seu interior vários conflitos. Afinal, o próprio Harry vive essa dicotomia ao ser um elo de ligação com o próprio mal. Uma ligação mental e energética.

Não é a primeira vez que o cinema, os quadrinhos, os livros e a história da humanidade até, ensinam que o herói necessita do vilão para realizar completamente seu potencial.

Nesse aspecto, é o mesmo que dizer que o amor e o ódio são temperaturas opostas de uma única emoção. Assim, Valdemort (Ralph Fiennes) e Harry (Daniel Radcliffe) são um ser humano partido em dois, um sendo a imagem do egoísmo exacerbado, da ganância, do desejo pelo poder, das manipulações e artimanhas do ego. O outro refletindo a entrega, a busca incansável pela pureza de intenção, o sacrifício voluntário, a doação e a defesa dos mais fracos. Não é errado entender que Valdemort e Harry são aspectos de uma mesma personalidade, despedaçada por Rowling e levada ao seu extremo.

Senão, vejamos. Os dois são órfãos, foram segregados, a seu modo, e buscam sua auto-afirmação. Com esse intuito acabam descobrindo e usando dons especiais que causam medo e devoção. O que diferencia os dois na verdade são suas escolhas e motivações. Valdemort é a realização invertida de Harry.


Neste episódio, o mundo desmorona completamente nos ombros dos três amigos, recém saídos da adolescência, mas obrigados a resolver questões internas e chamados a definir uma guerra que envolve a todos, mas na qual eles têm uma ação e importância preponderante. É interessante que a escritora tenha resolvido construir a história a partir de crianças seguindo o seu crescimento ano a ano. Era realmente uma forma de educar e incutir na mente de milhões de Harrys, Hermiones, Ronys, Lunas e Nevilles espalhados pelo mundo lições morais. Partindo da clássica lição: o mal não compensa. E avançando para lições mais complexas: qualquer tipo de totalitarismo é nefasto, a segregação e o bullyng são dolorosos, nós geramos nossos próprios monstros, que podem vir a dominar uma nação ou matar seus colegas numa tarde ensolarada de aula.

Mas voltando ao filme. Neste longa os três amigos vivem o batismo de fogo e a definição se eles estarão, ou não, a altura de vencer os desafios que foram propostos para e por eles mesmos. Mas uma metáfora de Rowling. Qualquer semelhança com deixar a vida segura e minimamente ordenada de uma escola ou faculdade e encarar o mercado e as relações de competição e exigências do mundo real, não é mera coincidência.

O mundo parece grande demais nas esperas, nos silêncios impostos durante a longa viagem de Harry, Hermione (Emma Watson) e Rony (Rupert Grint). Uma viagem sem um destino certo, onde eles apenas se escondem e procuram sem saber bem o quê, nem por onde. As paisagens são belíssimas, mas também desoladas, para dar ainda mais a idéia de quanto eles estão perdidos e sós, sem Alvo Dumbledore, os pais ou longe dos muros protegidos da A Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Agora é o momento daquela bifurcação onde será definido o destino e é importante saber escolher se o melhor caminho é ir pela direita ou pela esquerda.

Algumas cenas são belas. Quando Gina Wealey (Bonnie Wright) e Harry se beijam, quando, em meio uma festa de casamento, uma luz rasga o céu anunciando que uma tragédia se avizinha. Quando Hermione e Harry dançam desajeitadamente.

O pequeno curta da história das Relíquias da Morte é maravilhoso.

Mas em termos de química, é Hermione e Rony que se sobressaem e revelam os melhores momentos.

Enquanto isso, Harry vai aos poucos ganhando realmente a dimensão de um herói, em toda a sua estatura. Não que ele já não tenha demonstrado sua bravura, mas foi sempre com uma força claudicante e necessitada do auxílio e da confirmação dos que estavam a sua volta. É só neste filme que o herói desponta de fato. Numa bela cena final, num momento muito mais simbólico do que de ação, quando Harry segura o elfo Dobby nos braços. É esse fim que denuncia que Harry (e o ator Daniel Radcliffe) conseguiu chegar a altura exigida pelos desafios que se avizinham. Agora, Harry está à beira do abismo e o fundo do abismo devolve o seu olhar. É desse confronto interior que desponta a inteireza para as ações que virão...

A direção segura de David Yates, os efeitos especiais competentíssimos e atores afiados – o trio de protagonistas parece que enfim amadureceu diante das câmeras, são boas novas que têm se mantido. Há apenas uma cena complicada, o enfrentamento de Hermione e Bellatrix Lestrange, difícil não perceber as falhas da bela Emma Watson frente a Helena Bonham Carter. Esta última uma atriz tarimbada que construiu sua personagem como uma bruxa com um misto de insanidade e perversão. Faltou luta ao enfrentamento... ah, sim, talvez seja porque o filme é censura 12 anos.

Bem, agora só resta esperar pelo momento final que deverá finalizar a sagração do herói com tudo que ele tem de dor e redenção.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Luzes Eleutérias


Estou surdo
Uma dor profunda zune pelos meus tímpanos
Dessa dor surge uma revelação
Será que o que eu escuto é realmente o mesmo som que sai das bocas
Dos roncos dos motores, do barulho das ruas?
Um dia desses procurei ficar em silêncio,
mas não havia silêncio para me apoiar, então caí até me esborrachar...
Por mais silêncio que eu fizesse eu sempre podia ouvir uma gargalhada,
Uma voz, uma buzina, um motor ronronando...

Uma luz explodiu nos meus olhos

Não consigo enxergar mais nada, ou pelo menos nada mais é como antes
Olho para as casas e elas parecem que estão pelo avesso
Olho para as pessoas e elas parecem que são ocas
Quase me assombro ao ver as poucas que mantém uma chama
É uma luz bruxuleante
Às vezes está na testa, outras no centro do corpo
Outras, no coração.

Meu corpo foi despedaçado
Em pedaços fui atirado pelo espaço
No infinito esses pedaços foram reunidos, mas também caíram sobre a Terra
Na Terra, ao invés de árvores, nasceram homens-árvores
Estes cresceram e novamente ficaram surdos, cegos e despedaçados
Um dia, eu disse, enquanto me derramava sobre a terra,
Vou reunir-me por completo e, então, vou cair para o alto.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Horizonte Perdido, um musical reflexivo


O filme Horizonte Perdido de 1973, musical dirigido por Charles Jarrott e baseado em romance homônimo de James Hilton, é um dos meus preferidos. Há uma versão anterior, de 1937, do qual este é um remake, em preto e branco e dirigida por Frank Capra.

O livro de James Hilton, que deu origem ao filme, concebido logo após a depressão americana e no pós guerra, criava uma utópica localidade, um lugar mágico entre as belíssimas e inacessíveis montanhas congeladas do Tibet, onde pessoas de diversas nacionalidades viveriam de forma livre, partindo do princípio do uso da moderação em todas as suas atividades e atitudes. Assim, Shangri-La, era assim chamado o tal Horizonte Perdido, representava uma espécie de Novo-Eden.

Mas voltando ao filme. Antes de tudo, confesso que adoro os filmes de Capra, mas esse filme de Jarrot, é superior, ainda que na época do lançamento tanto a crítica quanto o público não tenham gostado. Minha preferência talvez seja pelas canções, todas do genial Burt Bacharach, além da performance dos atores, é claro, ainda que não dê para dizer que há alguma química realmente entre os casais formados. O cast do filme conta com gente com Peter Finch, Liv Ullmann, George Kennedy, Sally Kellerman, Michael York, Charles Boyer, Bobby Van e John Gielgud. As coreografias tem uma simplicidade que contribuem para o charme do filme.

Claro que os críticos podem dizer que a simplicidade das coreografias é falta de criatividade, que esse mundo perfeito é branco demais, anti-gay e pró-família cristã demais, considerando que a história se passa no Himalaia. Alguns ainda podem estranhar que o Dalai Lama do monastério é um padre francês. Contudo, acredito que essas são interpretações exageradas. Algumas delas equivocadas mesmo...Não dá para ler alguns filmes com o senso crítico ácido de sempre, e Horizonte Perdido é um desses filmes. É preciso embarcar na proposta.

A história. Durante um conflito na China - não fica claro qual é o conflito realmente. Um grupo de fugitivos, desconhecidos entre si, tem seu avião seqüestrado. Enquanto voam sem saber qual será o destino, uma tempestade derruba o avião que cai em algum lugar do Himalaia. Os sobreviventes são resgatados por pessoas que habitam um lugar chamado Shangri-la, onde existe a eterna juventude e a felicidade plena.

Ainda no avião somos apresentados a Richard Conway (Peter Finch) um graduado funcionário da ONU e seu irmão, o egoísta George Conway (Michael York). Também encontramos a solitária Sally (Sally Kellerman), uma repórter do Newsweek infeliz que vive se entupindo de remédios para perder a sobriedade. Sam Cornelius (George Kennedy), na verdade um empresário/engenheiro ganancioso e Harry Lovett (Bobby Van) uma espécie de humorista/quadrinista que não tem mais a atenção do público.

A equipe que resgata os viajantes é comandada pelo misterioso Chang (John Gielgud) que conduz a turma até Shangri-la. Lá, aos poucos cada um vai se deixando envolver pela atmosfera mágica do lugar. Como se fossem se desintoxicando. Vão sendo revelados aspectos positivos desses personagens antes ocultos.

As músicas enriquecem a obra. Logo nas cenas iniciais vemos as montanhas do Himalaia ao som da música: “Alguma vez você já sonhou com um lugar. Longe de tudo. Onde o ar que respiramos é limpo e macio. E as crianças brincam nos campos verdes. E o som das armas, não é ouvido (mais). Muitas milhas de ontem antes de chegar amanhã. Onde o tempo é sempre hoje”, da música de Burt Bacharach & Shawn Philips tema do filme.

Ou ainda a bela música cantado por Sally Kellerman “Quando você olha para si mesmo, - você gosta do que vê? Se você gosta do que vê, você é a pessoa que deve ser. Porque o seu reflexo reflete em tudo que faz, e tudo que você faz reflete em você. Quando você acorda todos os dias, você gosta de como você se sente? Se você gosta de como você se sente,você não tem nada a esconder. Quando você se deita para dormir - você gosta dos seus sonhos. Se você gosta de todos os seus sonhos, a vida é tão feliz quanto parece”

Há pelo menos dois outros momentos memoráveis, quando Kellerman e Olivia Hussey cantam 'The Things I Will Not Miss' e quando Bobby Van dá uma aula para os nativos. Para mim, o filme é mais que um manifesto pacifista e cumpre seu papel de questionar qual é a civilização que estamos criando e o que nos motiva. Horizonte Perdido é um filme reflexivo, que questiona nossos valores e nos faz olhar para o mundo com um olhar crítico, mas ao mesmo tempo compassivo.As múscias tornam esse olhar um pouco menos doloroso, em suas constatações. As críticas por ele não ser plural em sua apresentação, para mim, não são pertinentes. Não é a imagem que fala do ideal, mas a proposta. Por isso, recomendo.


Assistam.
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terça-feira, 16 de novembro de 2010

A morte e a vida após a morte

Até os 22 anos, o mundo para mim era apenas o real e o palpável. Assim, fui construindo uma mentalidade completamente racional, lógica. Cortando qualquer pensamento religioso ou fantasioso.

Um dia, o invisível me deu uma rasteira fenomenal.

Apesar da minha boa verve, de um relativo sucesso no meu próprio meio, o meu mundo racional era imensamente infeliz. Eu me sentia cada vez mais vazio e sozinho, mesmo rodeado de amigos. Lembrei-me de uma sensação de quando eu era criança, de uma presença acolhedora. Essa sensação não tinha nada a ver com religião, apesar de minha mãe sempre que podia me levar à Igreja. Eu relacionava esse acolhimento com Deus... não podia não relacionar minha infelicidade com a falta D’Ele.

Retornando aos 22 anos. Foi depois de constatar essa infelicidade e uma certa falência do que eu considerava uma escolha racional para mim que desejei retomar alguma relação espiritual – vivi minha infância na Igreja Católica. Naquela época (na infância) eu encarava Cristo como uma espécie de herói indestrutível. Coisa dos quadrinhos.

Meu pedido foi uma ordem.

Tinha me preparado para dormir mais cedo, estava um pouco cansado. Apaguei a luz e deitei na cama. Assim que fechei os olhos vi uma luz, um ponto minúsculo longínquo. Abri os olhos novamente e constatei que estava tudo escuro. Fechei mais uma vez. Lá estava o ponto de luz e eu comecei a perscrutar que luz seria aquela. Para minha surpresa a luz foi aumentando de tamanho. Parecia se aproximar.

Nesse momento foi me assaltando aquela mesma sensação de acolhimento da infância. Além do acolhimento, eu sentia uma imensa paz e amor. Não um amor físico ou carnal, algo que talvez seja parecido com o êxtase espiritual.

A luz se aproximava e ficava cada vez maior e eu só conseguia dizer uma palavra: sim, sim. Como se a cada palavra afirmativa a luz desse mais um passo em minha direção.

Eu sentia um misto de emoção, prazer, alegria. A luz continuava a se aproximar. Já não havia nenhuma escuridão, mas meus olhos continuavam fechados. Senti que o ‘encontro’ estava próximo. Nos tocaríamos. Nesse momento um pensamento rápido passou pela minha mente. Foi numa fração. Por uma fração a gente perde o paraíso, já ouvi dizer.

Então, me perguntei: Será que vou morrer? Será que vou perder o controle do meu corpo? Bastou esse pensamento e a luz desapareceu e eu me quedei novamente lá, no escuro do quarto. Sozinho.

É difícil dizer qual era a sensação, mas era como se ao meu redor minha energia estivesse prestes a explodir. Meu corpo estava quente. Abri os olhos, sentei na cama e a primeira coisa que pensei foi que talvez meu cérebro tivesse me pregado alguma peça e eu tivesse sofrido algum ataque epilético. Santa visão cartesiana!

Deste dia em diante minha percepção do mundo ficou alterada. As ‘coincidências’ se tornaram absurdas de mais para serem coincidências. Eu pensava em alguém e essa pessoa ligava. Eu falava que queria encontrar alguém e encontrava. Em algumas conversas era como se eu soubesse exatamente qual seria a frase seguinte que seria dita, e muitas vezes sabia... Mas não foi só isso.

Uma parte do mundo espiritual se descortinou. Eu passei a ouvir, ver e sentir... gente morta, como dizia Haley Joel Osment no filme ‘O Sexto Sentido’. Não vou mentir: foi assustador. Descobri que nunca estamos sozinhos. Meu quarto parecia uma peregrinação de viajantes à noite.

Bem, nesse ínterim um amigo me levou á um Centro Espírita – contra a vontade de minha família, principalmente minha mãe e minha irmã, uma católica fervorosa e outra, a época, evangélica fundamentalista. Venci o meu próprio preconceito com o espiritismo e fui assim mesmo. Fiquei encantado. Recebi alguns passes e comecei a entender um pouco mais o que me acontecia. Nunca vi tanta gente, das mais diversas idades, acreditando que havia vida fora da Terra. Achei divertido, longe daquela visão cheia de pompa da Igreja Católica que eu estava acostumado.

Vocês podem achar que eu cedi rápido demais ao invisível. Não foi rápido. Passei 22 anos lutando até ser vencido. Poderia continuar buscando uma explicação lógica, é verdade, mas preferi acreditar que as sensações que envolveram meu despertar espiritual não podiam e nem deviam ser explicadas por descargas de neurônios aleatórias. Tem outra coisa, o mundo invisível se mostrou tão palpável para mim, quanto o invisível. Como negá-lo?

A partir daí começou minha saga para entender esse mundo a nossa volta que aparentemente ninguém via. Meu mundo metodicamente cartesiano foi abrindo espaço para outra realidade. Primeiro: descobri que os espíritos existem sim e eles estão muito próximos de nós. Interagem praticamente a todo instante. E, ao contrário do que pensam muitos, nesse mundo invisível estão espíritos que podemos chamar de bons e de maus, ou apenas confusos. Morrer não faz de ninguém um santo. Se era endiabrado em vida, continua do mesmo jeito depois de morto. Não há solução mágica. A pessoa precisa ACORDAR para a LUZ. E vou dizer, nem todos vêem a luz. Às vezes, para esses espíritos, não há luz nenhuma durante anos.

Entendi que a morte é apenas uma passagem. Nada termina. Nada. A vida continua com uma qualidade bem maior do que a vivida no plano terreno. Claro, tudo depende do grau de evolução de cada um.

Aprendi acima de tudo que não devemos temer os mortos. Também não precisamos procurá-los. Eles sabem o endereço. Descobri também que acreditar apenas no que revelam os cinco sentidos é limitar demais a realidade do universo na percepção difusa das nossas próprias necessidades.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

'Afogando' Mayara e seu pensamento nazifascista

Confesso que relutei em escrever sobre isso, por isso demorou tanto, mas aí vai...

Mayara Petruso conseguiu seus 15 minutos de fama através de seus vômitos na rede mundial. A paulista postou no Facebook, após a vitória de Dilma Rousseff (PT), um desabafo endiabrado. Sugerindo que nordestino não é gente. A moça, uma estagiária de direto incitou: ‘Faça um favor a São Paulo, mate um nordestino afogado!”. Antes a ‘inteligente’ estudante de direito tinha postado essa pérola: “Afunda Brasil! Dêem direito a voto aos nordestinos e afundem o país de quem trabalha para sustentar os vagabundos que fazem filho para ganhar a bolsa 171”, disse.

Tudo isso porque a região deu a Dilma Rousseff (PT) 18 milhões de votos e apenas 7 milhões a José Serra. Vários amigos meus ficaram indignados – detalhe, a maioria não é nordestina. Eu, que nasci em João Pessoa, capital da famosa Paraíba (famosa pelos seus renomados cabeças chatas, homens de peixeira na cintura e das mulheres ‘cabras macho’, deveria pensar Mayara) ouvi e li os comentários e não tive pensamento nenhum. Não me senti atingido.

Simplesmente porque as palavras de Mayara não me diziam nada. Aprendi, na Kabalah, que se alguém lhe diz algo que lhe atinge de alguma forma e provoca em voce irritação, fúria, indignação, é porque encontrou algum tipo de eco. E esse eco é jogado para fora, vociferado, na maioria das vezes, reforçando o orgulho. Por isso, pipocaram na Internet e nos meios de comunicação frases de efeito e artigos reforçando o orgulho nordestino.

Desculpem-me os que pensam como Mayara, mas eu não me sinto inferior, não preciso que meu orgulho seja reforçado e nenhuma daquelas palavras fere minha integridade como cidadão. Apenas expõe a ignorância da garota. Mayara demonstrou o que pensa uma certa elite paulistana e carioca e de outros recantos chiques do Brasil. Mas não é só um pensamento que está entranhado na elite. Ele também ecoa em algumas cabeças da classe média alta. É um pensamento fascista, separatista, preconceituoso. Que se autodenomina e se auto-observa como sendo o rico espoliado pelos pobretões.

Lembra a visão da monarquia. Uma Maria Antonieta dizendo ‘Se não tem pão, comam brioche!’. Frase célebre dita antes da queda da bastilha. Todos sabem qual foi o fim de Antonieta – a guilhotina. Antonieta esquecia que eram seus súditos que lhe proporcionavam a vida que ela tinha, não era ela que proporcionava a vida aos seus súditos.

Passa despercebida a elite, e a Mayara, filha dessa elite, a mesma coisa: não é o sudeste que proporciona ao nordeste seu bem estar, a matemática é invertida. Afinal, todo o dinheiro investido no Nordeste para gerar emprego e renda, retorna as regiões mais industrializadas quando o trabalhador, ou aquele usuário do Bolsa Família, que seja, alimenta a economia comprando bens de consumo duráveis ou não.


Mayara aponta o dedo e diz que muitos no Nordeste agora preferem fazer filho ao invés de trabalhar. Sabem que terão o Bolsa Família. Já ouvi esse argumento dito da boca de um prefeito e de técnicos sérios na própria Paraíba. Por isso, não duvido que exista também essa realidade. Mas é ridículo acreditar que essa é a regra geral. Acreditar nisso é voltar para o início do século XX, onde diziam que a miscigenação enfraquecia a índole do homem. Tornando-o corrupto, de segundo escalão. Foi aí que floresceram ‘filosofias’ fascistas e nazistas. Eles acreditavam que os não-arianos eram seres de segunda grandeza.

Graças a Deus, surgiram outros pensamentos, e a engenharia genética, explicando que não existe raça pura. O mundo é uma mistura. Completa. E o Brasil uma mistura maior ainda, que lhe dá um caldo cultural e uma diversidade que é uma de suas riquezas. Mayara resgata esse raciocínio, mas ela não inclui mais todos os brasileiros num único caldeirão. Uma parte é pura, a outra é o símbolo do atraso.

O nordeste dos baianos, paraibanos, cearenses. O nordeste dos Sarneys, dos Collors, dos ACMs. O Nordeste miserável que precisa do Bolsa Família para manter as famílias amontoadas nos manguezais. Famílias, que segundo Mayara, já nascem corruptas e preferem botar um filho no mundo para viver as custas do governo federal do que trabalhar.

O Nordeste tem mazelas. Mas muitas delas, talvez a maioria, estão em todo país. Do tipo: a corrupção, um pensamento corporativista nos governos, uma política ainda com resquícios do coronelismo – que pouco a pouco vem arrefecendo, mas outros tipo de coronelismos vão surgindo. Não venham me dizer que o rodízio de poder na mão de algumas famílias é uma prerrogativa apenas da região Nordeste. Esse tipo de política pode ser percebida em praticamente todo o país, mais ou menos diluída, mas ainda presente.

Essas mazelas são um sinal da falta de educação. Uma educação e cultura real, forjada na luta democrática, não na forja da elite. Afinal, ter educação, mas continuar como uma Mayara da vida, não é avanço, é manter a ignorância apesar do acesso garantido. Ter dinheiro, ser rico, nunca foi sinal de sabedoria. Assim como acumular conhecimento nas faculdades não desenvolve a moral, nem a ética. A revolução a qual Mayara se ressente deveria começar com a mudança da sua própria mentalidade.

Só para deixar claro: se os votos dos nordestinos dados a Dilma e a José Serra fosse retirados, a mineira ainda ganharia por 1 milhão e 300 mil votos. Ainda, se tirarmos a diferença dada a Dilma no Nordeste: 10.733.007 milhões, a candidata do PT ainda ganha com o mesmo percentual, 1,3 milhão.

O Nordeste escolheu Dilma, porque tem crescido a taxas chinesas. O Nordeste tem sido descoberto e se descoberto como novo eldorado. E, em grande parte, isso é mérito do governo do PT. É inegável. O Nordeste não votou em José Serra porque o tucano demorou demais para decidir se candidatar, não abriu canais de comunicação mais efetivos com região – com visitas para se fazer mais conhecido e a suas propostas. A tática de Serra para a região foi tardia e pífia.

Só para finalizar. Quando a raposa prende a cauda ou a pata numa armadilha, ela, muitas vezes, corta essa parte para se ver livre. É como tirar uma parte do corpo para mantê-lo vivo. Se fosse possível Mayara descartaria os nordestinos, crente que sua vida seria um paraíso. A opção, às vezes é válida, outras vezes é um suicídio. Os fariseus e saduceus preferiram crucificar Cristo para salvar o povo judeu. Perderam os dois. Foram necessários quase dois milênios até se recomporem de novo como nação. Por isso, cuidado: é preciso saber o que se descartará. Às vezes, sem perceber, podemos jogar fora o coração. Eu sei que o cérebro é importante, mas sem coração o corpo não vive.